Jornalistas do SBT mandam carta para a direção e pedem saída de Marcão do Povo, após comentário do apresentador em cobertura do coronavírus: “Impossível nos calarmos”

Situação delicada nos bastidores do programa “Primeiro Impacto”, do SBT. Jornalistas que trabalham na atração redigiram uma carta repudiando a postura do apresentador Marcão do Povo, após o profissional sugerir que pessoas infectados pela Covid-19 deveriam ser colocadas em um ‘campo de concentração’. “Impossível nos calarmos”, disseram logo no início do texto.

Neste domingo (12), o UOL teve acesso ao texto na íntegra que pede pelo desligamento de Marcão, assim que terminar o período de 15 dias de suspensão que ele recebeu pela fala polêmica. Os colegas de trabalho acusam o apresentador de não seguir as recomendações de higiene da Organização Mundial de Saúde (OMS) na prevenção contra o coronavírus, o que coloca todos ao seu redor em risco. “Um apresentador, que tem o privilégio de ser ouvido por todo País, não pode sugerir qualquer orientação contrária a seus telespectadores. É um desrespeito à vida dos que nos assistem e confiam na credibilidade desta emissora”, escreveram.

Além disso, a equipe aponta que o comportamento do comunicador é completamente contrário às normas do departamento jornalístico da emissora e do trabalho realizado pela produção. “Muitos dos que assinam essa carta testemunharam o sr Marcão do Povo dizer, em alto e bom som, que só obedece o dono da emissora e que não presta contas a mais ninguém”, escreveram.

Marcão do Povo causou revolta nas redes com a declaração (Foto: Reprodução/SBT; Getty)

Segundo a publicação, a carta já chegou ao conhecimento de José Occhiuso, responsável pela direção do núcleo jornalístico do canal do SBT. No entanto, a contratação de Marcão do Povo foi feita por Sílvio Santos, e o patrão é quem deve decidir o destino do apresentador em relação ao programa. O texto foi assinado por quase todos os trabalhadores da atração, com a exceção de Dudu Camargo.

Leia a carta da equipe do “Primeiro Impacto” na íntegra

À direção do SBT,

Impossível nos calarmos. Ainda que em diversas outras ocasiões que envolveram a mesma pessoa tenhamos optado pelo silêncio, todos os valores de ética, ou mais, de decência humana foram violentados pelo apresentador do telejornal Primeiro Impacto, Marcos Paulo Ribeiro de Morais. Ao defender a criação de “campos de concentração” para pessoas infectadas pelo novo Coronavírus, o apresentador que se autointitula como Marcão do Povo, extrapola, no nosso entender, todo e qualquer limite.

Jornalistas que somos, por vocação acima de tudo, decidimos tornar público nosso repúdio à forma como o apresentador se referiu à maior crise de saúde do século. O que não nos causa nenhuma surpresa. O comportamento dele sempre foi o de não acatar orientações nem determinações dos jornalistas que dirigem o Primeiro Impacto e o próprio Departamento de Jornalismo do SBT. E isso sempre foi feito publicamente na redação. Muitos dos que assinam essa carta testemunharam o sr Marcão do Povo dizer, em alto e bom som, que só obedece o dono da emissora e que não presta contas a mais ninguém.

Nós, jornalistas do SBT, vivemos o maior desafio profissional que poderíamos sequer um dia imaginar. Talvez, o maior desafio pessoal. Estamos todos os dias nos expondo a todo tipo de risco para informar a população sobre a pandemia. Porque acreditamos na nossa função e nos princípios desta emissora. Essa, sim, do povo brasileiro.

Não é necessário descrevermos aqui a mais nova absurda declaração feita pelo apresentador. Os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial estão entre as maiores vergonhas da humanidade. A necessidade de manter a população em casa é, segundo todas as autoridades de saúde do mundo, a única medida a ser tomada para diminuir o número de mortos. Um apresentador, que tem o privilégio de ser ouvido por todo País, não pode sugerir qualquer orientação contrária a seus telespectadores. É um desrespeito à vida dos que nos assistem e confiam na credibilidade desta emissora.

Hoje – e esse número será maior a cada dia -, morrem no Brasil, em média, cento e quarenta pessoas vítimas da covid-19. O que significa dizer que, enquanto o sr. Marcos Paulo Ribeiro de Morais está no ar, ao vivo, para todo o Brasil, pelo menos 14 famílias perdem pais, avós, irmãos, maridos, esposas, filhos, amigos, enfim… Pessoas que, segundo o apresentador, deveriam estar em “campos de concentração”. Mais do que envergonhar a todos nós, jornalistas, o sr. Marcos Paulo Ribeiro de Morais não está a altura de representar o nome e a história do SBT.

Entenda o caso

Marcão causou revolta nas redes sociais após a edição do “Primeiro Impacto” da terça-feira (7). Ao falar sobre a pandemia do novo coronavírus, o jornalista sugeriu que fossem criados campos de concentração para abrigar todos os diagnosticados com Covid-19.

Mesmo com muitos casos e mortes confirmadas ao redor do país, o apresentador afirmou que seria interessante criar um local para abrigar todas essas pessoas. “Na China, na cidade de Wuhan, pessoas que estavam com o coronavírus foram levadas e colocadas nessa cidade. Montaram vários hospitais e as pessoas foram tratadas naquele local”, comparou ele, citando uma ‘fake news’. Na verdade, o país não levou pessoas para lá e, sim, interditou a cidade central de 11 milhões de habitantes.

Não obstante, Marcão, seguiu, fazendo um pedido para o presidente Jair Bolsonaro. “Atenção, presidente! Não seria interessante montar um local aonde todas as pessoas que tivessem os sintomas, que tivessem o coronavírus, fossem levadas e bem cuidadas, bem tratadas ao invés de espalhar da maneira que está sendo aí? Todos os lugares montando, um gasto excessivo, as cidades paradas. Não seria interessante um local só para cuidar dessas pessoas?”, indagou, utilizando na sequência, o termo ‘campo de concentração’. Assista ao momento na íntegra:

A referência a “campos de concentração” é, no mínimo, preocupante. Os centros criados pela Alemanha nazista de Adolf Hitler eram responsáveis por aprisionar e promover o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em alguns deles, os judeus eram executados em câmaras de gás.

Na época, conhecida como Holocausto, estima-se que foram mortas pela ação dos nazistas cerca de seis milhões de pessoas judias. Devido a falhas de registro, o número provavelmente é ainda maior. Atualmente, a Alemanha mantém o empenho de explicar os horrores produzidos por Hitler e seus aliados desde a infância da população.

Suspensão por fala polêmica

O SBT anunciou nesta quarta-feira (8) que o apresentador foi suspenso de suas funções no matinal “Primeiro Impacto”. A decisão veio um dia após o jornalista sugerir no ar, que o governo brasileiro deveria construir um “campo de concentração” para os infectados pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2).

Gostaríamos de esclarecer ao público, às autoridades, àqueles que estão na linha de frente ao combate incessante da pandemia e, em especial, às pessoas vitimadas, que de forma alguma a opinião expressada pelo apresentador reflete o pensamento, a atitude e o respeito que a emissora tem pelo momento atual“, declarou o canal, em comunicado assinado pela diretoria.

A empresa se desculpou pelo episódio. “Lamentamos que o apresentador tenha usado nossa plataforma de modo que contraria tão profundamente os nossos princípios. A todos que de alguma forma possam ter se ofendido ou mesmo se indignado com as opiniões pessoais do apresentador, nossas mais sinceras desculpas“, pontuou.

Segundo o colunista Ricardo Feltrin, do UOL, a decisão teria partido do próprio Silvio Santos, responsável por contratar Marcão. O dono da emissora está confinado em sua casa, e teria descoberto tudo em uma ligação telefônica com seu assistente, Rafael Larena. De acordo com a coluna, Rafael teria descrito palavra por palavra do vídeo e lido comentários negativos das redes sociais e da imprensa.

Os comentários nos bastidores do SBT são de que Marcão deverá ficar afastado do seu posto pelos próximos 15 dias. Nesse período, o popularesco será apresentado apenas por Dudu Camargo e Márcia Dantas.

Pronunciamento nas redes sociais

Marcão do Povo usou as redes sociais na manhã da quinta-feira (09), para falar pela primeira vez após todo o ocorrido. Através dos Stories, do Instagram, o âncora do telejornal mostrou que estava trabalhando de casa. “Tô passando aqui pra deixar um beijo pra cada um de vocês. Dizer que eu tô muito feliz, trabalhando bastante. Tô aqui no escritório, a gente não para, e a nossa equipe tá toda empenhada em organizar todos os contratos necessários e a gente tá ajudando muitas famílias também”, declarou ele.

Marcão não mencionou a suspensão diretamente, mas agradeceu ao apoio que estaria recebendo nos últimos dias de quem “está do lado da verdade”. “Esse que é o meu papel, eu sempre gostei de estar do lado das pessoas. [Queria] dizer que tudo passa e Deus tem a resposta pra todas as perguntas, né? Mas obrigado a cada um de vocês aí que tem realmente estado do lado da verdade. A vida é assim, gente, nós temos que pagar preços altíssimos para que possamos chegar aonde Deus quer”, concluiu.

Além do vídeo, o apresentador compartilhou imagens com mensagens que parecem se referir ao caso. “Não se preocupe com os que te odeiam, preocupe-se com os que fingem gostar de você”, dizia uma. “Posso até trocar as minhas folhas, mas jamais arrancarei minhas raízes. A essência vale mais que a embalagem”, afirmava outra.

Quem olhar os comentários de todas as publicações, inclusive, quase não encontrará palavras negativas. Segundo o colunista Ricardo Feltrin, do UOL, a assessoria do jornalista teve trabalho o dia todo para bloquear e deletar mensagens ofensivas.