No JN, Bonner e Renata fazem editorial certeiro sobre os 100 mil brasileiros mortos pela Covid-19, e questiona se Bolsonaro cumpriu a Constituição; assista

O último sábado (8), foi um péssimo dia para ser brasileiro… O país atingiu a terrível marca de mais de 100 mil mortos pela Covid-19, fato que, obviamente, não passou despercebido pelo “Jornal Nacional”. Na abertura do noticiário, William Bonner e Renata Vasconcellos deram voz a um editorial, destacando a responsabilidade, ou melhor dizendo a falta dela, do presidente Jair Bolsonaro e de outros políticos com a nação.

“Todo cidadão brasileiro tem direito à saúde. E todos os governantes brasileiros têm a obrigação de proporcionar aos cidadãos esse direito. As ações dos governantes precisam ter como objetivo diminuir o risco de a população ficar doente e não somos nós que estamos dizendo isso, é a Constituição Brasileira, que todas as autoridades juraram respeitar”, começou o âncora.

O artigo 196 da Constituição deixa tal obrigação explícita. “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”, leu Bonner.

O “Jornal Nacional” fez questão de destacar o texto da Constituição Brasileira. Foto: Reprodução/TV Globo

A cobrança do telejornal não é à toa. Desde o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, os cidadãos têm visto o chefe de Estado minimizar a grave situação como “uma gripezinha”, agir com completo desdém aos números de mortes em crescimento progressivo, e até mesmo tomar decisões preocupantes como “gestor”. “O Brasil está há 12 semanas sem um ministro da saúde titular. São 85 dias desde o dia 15 de maio. Dois médicos de formação deixaram o cargo de ministro da saúde porque pretendiam seguir as orientações da ciência. E o presidente Bolsonaro não concordou com essa postura deles”, lembrou Renata Vasconcellos.

“Primeiro o presidente menosprezou a Covid. Chamou de gripezinha. Depois, quando um repórter pediu que ele falasse sobre o número alto de mortes, Bolsonaro disse que não era coveiro. Disse duas vezes ‘Não sou coveiro’. Quando os óbitos chegaram a 5 mil, a resposta dele a um repórter foi um ‘E daí?’. Agora o presidente repete que a pandemia é uma chuva e que todos vão se molhar. Ou que a morte é o destino de todos nós e que temos de enfrentar a doença, como se fosse uma questão de coragem. Como se nada pudesse ter sido feito”, acrescentou William Bonner.

Renata Vasconcellos também destacou que o nosso país foi na contramão das principais e mais eficazes orientações científicas no combate da Covid-19. “Quando os cientistas defendiam mundo afora o isolamento social como única medida capaz de conter o avanço dessa tragédia, os brasileiros viam o presidente criticar essa iniciativa diariamente, na contramão do bom senso daqueles governadores que a defendiam. O resultado disso foi a confusão e a perplexidade de muitos cidadãos que ficaram sem saber em que acreditar. E o isolamento capenga, insuficiente para atingir plenamente o seu objetivo”, criticou.

William Bonner não deixou de citar a responsabilidade que outros políticos tiveram nesses números absurdos de vítimas fatais. “No ‘Jornal Nacional’ você viu aqui filas enormes de desesperados em busca de um leito salvador de UTI. Filas que se formavam e se formam porque os leitos não foram comprados a tempo e na quantidade adequada por prefeitos, governadores e pelo presidente. Ou porque a falta de isolamento social deixou de achatar a curva de contaminados e sobrecarregou o sistema de saúde”, observou.

“Diante disso tudo, é necessário relembrar a constituição, porque isso nos levanta uma pergunta importantíssima. (…) A pergunta que se impõem é: O presidente da República cumpriu esse dever? Entre os governadores e prefeitos, quem cumpriu? Quem não cumpriu? Mais cedo ou mais tarde, o Brasil vai precisar de respostas para essas perguntas. É assim nas democracias e nas repúblicas, em que todos temos direitos e deveres e onde ninguém está acima da lei”, frisou a jornalista.

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A notícia que ninguém queria dar… O Brasil está cada vez mais próximo da marca de 100 mil mortos pela Covid-19. Neste sábado (8), a ONG Rio de Paz realizou uma manifestação na praia de Copacabana, colocando na areia, 100 cruzes, cada uma representando mil vítimas fatais. Leiam com atenção esses números, gente! São milhares de pessoas que não estão aqui mais. Milhares de famílias, amigos e colegas de trabalho em luto. E, mesmo assim, o mau caratismo de muitos ainda duvida desse cenário de horror, e desrespeita a dor do outro. Mais uma vez, o protesto pacífico foi atacado por críticas desrespeitosas de um homem que afirmava: “Fake news!” Com a foto do filho nas mãos, morto pelo coronavírus aos 25 anos, o taxista Márcio Antônio do Nascimento Silva precisou defender seu direito de fazer a homenagem pela segunda vez. Em junho, ele viralizou na web, recolocando todas as cruzes na praia que haviam sido retiradas por um idoso. “Não é fácil estar aqui, não é fácil, não é fácil relembrar isso tudo. Amanhã seria o Dia dos Pais. Eu como muitos pais e muitos filhos não vamos estar ao lado dos entes queridos. Então, estar aqui para mim representa muito. Se eu puder conscientizar apenas uma pessoa, eu já fico muito feliz e acho que meu filho não passou em vão. Eu não posso mudar o mundo, mas se eu puder ajudar alguma pessoa, já é importante", falou em entrevista para o G1. Márcio, você é gigante! Você, sim, representa e orgulha esse país! Fica aqui meu desejo de que todos os pais, mães, e famílias que perderam entes queridos sejam confortados. E que os brasileiros e nossos governantes se conscientizem sem precisar perder alguém. (📷: Reprodução/Twitter; @riodepaz)

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Enquanto os apresentadores faziam a abertura certeira, fotos das vítimas eram exibidas no fundo, lembrando que antes de qualquer número, eram pessoas com famílias, amigos, colegas de trabalho. “Essa resposta vai ter que ser dada, principalmente, em respeito às famílias de mais de 100 mil brasileiros mortos, porque eles não podem ser vistos só como números. O ‘Jornal Nacional’ não vai se cansar de repetir”, garantiu Bonner.

“Essas vidas perdidas eram de brasileiros como todos nós. Não eram pessoas que estavam fadadas a morrer por qualquer outro motivo. Elas morreram de Covid. Deixaram uma família em dor, amigos, colegas de trabalho, conhecidos. Nós não podemos nos anestesiar”, refletiu o âncora. “100 mil pessoas. Nós reconhecemos a dor de todos os que perderam alguém querido nessa pandemia. Nós respeitamos essa dor e manifestamos a nossa solidariedade irrestrita com cada um”, finalizou Renata Vasconcellos. Assista: