Exclusivo: Lucas Penteado questiona decisão da Globo com Karol Conká, critica comparações com Pedro e revela atentado em casa

Ator analisou desistência de Pedro do “BBB 26”, anunciou suas torcidas e comemorou momento de sucesso na carreira

Lucas Penteado Isabella Pinheiro

Cinco anos após o BBB 21, Lucas Penteado falou ao hugogloss.com sobre sua trajetória pós-reality, comparações com o BBB 26, relação com ex-brothers, planos na política e um episódio recente de violência.

Cinco anos se passaram desde o “BBB 21” e, até hoje, a participação de Lucas Penteado continua gerando repercussão entre os fãs do reality. Em entrevista exclusiva ao hugogloss.com, o ator analisou sua trajetória após o programa. Na conversa, Lucas revelou como está sua relação com os demais concorrentes da edição, relembrou o acolhimento da emissora na época e abriu o coração sobre as comparações com Pedro, do “BBB 26“. Ele ainda expôs seus planos na política e denunciou um recente atentado sofrido dentro de casa.

Lucas entrou como Camarote da edição 21. Na época, ele era conhecido principalmente por seu papel em “Malhação: Viva a Diferença”. O artista desistiu do programa após duas semanas confinado. Ele se desentendeu com alguns participantes, principalmente Karol Conká, depois de um beijo em Gil do Vigor.

Lembranças do “BBB 21”

Questionado se mudaria algo em sua passagem pelo reality, Lucas garantiu que não se arrepende da própria história. “Na verdade, não. Iria me divertir nas festas da mesma maneira. Eu acho que quem teria que fazer algo diferente seriam os participantes. Porque eu sofri racismo e homofobia lá. Esse foi o único problema do BBB”, declarou. Para ele, o ambiente de pressão contribui para excessos, mas não justifica ataques. “Homofobia e racismo são crimes”, reforçou.

Sobre os bastidores, Lucas disse manter uma relação positiva com Boninho. “Ele está sempre comentando as minhas vitórias, assim como eu sempre comento as vitórias dele. A gente está sempre torcendo pela vitória um do outro”. Já em relação à emissora, ele fez ponderações. “Com todo respeito ao trabalho da Karol, uma excelentíssima artista, mas a Globo a contrata para usar do personagem que cometeu atrocidades no meu BBB. E aí esse personagem é incentivado a existir, e eu acho que isso é um tiro no pé. É desnecessário e até deselegante”, definiu.

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Lucas também falou sobre a conversa que teve com Conká após o programa: “Ela não me devia nada, nem um pedido de desculpas, porque, a partir do momento em que alguém te machuca, cabe a você cuidar de si. O problema que ela tinha para resolver era com ela mesma. Não havia como ela reparar os problemas que ela me causou de maneira alguma”.

Lucas e Gil deram um beijão durante uma festa no reality (Fotos: Reprodução/TV Globo; Instagram)

Na época de sua desistência, o nome de Lucas fora catapultado como um dos mais falados das redes sociais, atraindo a atenção de marcas e empresas. De acordo com o artista, entretanto, ele perdeu oportunidades por conta de cláusulas no contrato com a Globo. “Uma das parcerias foi oferecida por R$ 600 mil, e nós fomos impedidos de fechar porque conflitava com uma empresa que correspondia ao Big Brother”, relembrou.

Sobre os colegas de confinamento, Lucas afirmou que o contato é raro. “Exceto o Gil. Temos uma relação muito boa. Juliette… Durante um tempo, mantivemos uma relação muito boa. Só que é muito trabalho. Então, não tivemos tempo para ficar conversando. A Pocah, eu encontrei em uma festa. A Kerline, eu entrei em contato. Até o Nego Di, nós chegamos a conversar”, disse. Ele ainda ressaltou: “Eu não tenho absolutamente nada contra nenhum participante do Big Brother. E nunca tive”.

Opiniões sobre o “BBB 26”

Ao comentar a edição atual, Lucas se mostrou preocupado com o episódio de importunação sexual sofrido por Jordana. “Como é possível, em um lugar com 200 câmeras, uma pessoa não estar segura? Eu tô embasbacado”, questionou. Antenado aos acontecimentos da temporada, ele disse querer na final, Babu Santana, Solange Couto, Sarah Andrade e Ana Paula Renault.

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Já as comparações entre Lucas e Pedro, que desistiu do “BBB 26”, incomodaram profundamente o ator. Para ele, a associação entre as duas trajetórias é injusta. “Eu senti essas comparações como mais um ato criminoso”, afirmou. “Não há comparação nenhuma entre nós. Não há semelhança nenhuma entre nós. Eu fui perseguido pela casa. Eu fui humilhado pela casa. Eu fui diminuído pela casa, não foi o contrário. Ele cometeu intolerância religiosa. Eu sofri intolerância religiosa”, relatou.

Falas ácidas de Karol Conká para Lucas Penteado revoltaram o público na época (Fotos: Reprodução/TV Globo)

Emocionado, Lucas desabafou sobre o episódio vivido no “BBB 21”. “Quando a Karol gritou, em alto e bom som: ‘Onde está o seu Deus agora?'”. É uma tortura psicológica, porque, naquele momento, foi o único momento que eu me senti sozinho”, recordou.

Planos na política

Na entrevista, o ator anunciou que recebeu convites para entrar na política e confirmou a intenção de disputar as eleições de 2026. “Fomos procurados por alguns partidos políticos. Nos ofereceram propostas e espaço político, o Partido dos Trabalhadores, o Partido Avante e o Partido Solidariedade. Nós ainda não tomamos a decisão de qual partido, mas tomamos a decisão de que, sim, iremos participar, se Deus permitir, das eleições de 2026”, revelou. Entre as pautas que pretende defender, Lucas destacou saúde mental, políticas públicas afirmativas, educação, cultura e fiscalização do uso de recursos públicos.

O artista ainda denunciou que sua família foi alvo de um possível atentado recentemente. “Invadiram a casa da minha avó e cortaram o cano do gás que fornece gás encanado para a nossa casa”, relatou. “Foi alguém simplesmente fazendo isso para roubar o cano ou uma tentativa de explodir a minha casa? Nós não sabemos”, pontuou. No entanto, diante do ocorrido, ele fez um apelo: “Quando nós lutamos por políticas públicas afirmativas, nós nos colocamos em risco. Não deixem pessoas que lutam pela humanidade sozinhas. Elas estão realmente correndo risco”.

Nosso Sonho
Lucas encantou o público ao interpretar Claudinho na cinebiografia “Nosso Sonho” (Foto: Reprodução/Vitrine Filmes)

Apesar do susto, o artista comemorou o momento de destaque no cinema, com três filmes sendo lançados ainda este ano. Entre os projetos, estão dois longas dirigidos por Hsu Chien: “A Banda”, que também conta com Luísa Perissé e Lucas Salles, e “Os Emergentes”. Lucas também integra o elenco de “Senhoras”, ao lado de Nívea Maria e Zezeh Barbosa.

Além disso, o ator comemorou a projeção internacional de seu trabalho em “Nosso Sonho“, cinebiografia da dupla Claudinho e Buchecha. “Estamos passando nos cinemas do Japão. Ganhamos prêmios do outro lado do mundo”, disse, emocionado. “Eu nunca imaginei, naquela época em que eu não tinha nem o que comer, que um dia eu ia, com o meu trabalho, passar do outro lado do mundo. Que eu ia passar num local onde os melhores desenhos foram criados. Porque eu cresci assistindo aos desenhos de lá. E hoje eu estou podendo falar um pouco do meu país através desse filme”, concluiu.

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Confira a entrevista na íntegra:

HG: Estamos na época do BBB, e numa temporada com participantes emblemáticos. Você ainda pensa na sua trajetória no programa? Você faria alguma coisa diferente se pudesse voltar?
L: Na verdade, não. Iria me divertir nas festas da mesma maneira. Eu acho que quem teria que fazer algo diferente seriam os participantes. Porque eu sofri racismo e homofobia lá. Esse foi o único problema do BBB. Numa festa, a gente se diverte, a gente bebe. No BBB, claramente, por estar pressionado, pode ser que a gente passe do ponto da quantidade da bebida, puxe um assunto ou outro incômodo. Mas acho que quem teria que ter mesmo um comportamento diferente no Big Brother seriam os outros participantes que cometeram atrocidades contra mim. Crimes, na verdade, né? Porque homofobia e racismo são crimes.

HG: Quanto tempo levou para você entender o impacto da sua saída aqui fora?
L: Acho que eu só compreendo hoje o quanto foi necessária, para o país, a mensagem de: quando algo está tóxico, parta, vá embora. Que a gente não é obrigado a ficar vivendo relações tóxicas. Além de partir, denuncie, proteja-se. Porque o algoz pode se fazer de vítima para poder silenciar a verdadeira vítima.

HG: Você e o Boninho chegaram a conversar depois que você deixou o programa? 
L: A gente tem uma relação muito boa. Isso eu posso dizer. E estamos sempre torcendo um pelo outro. Ele está sempre comentando as minhas vitórias, assim como eu sempre comento as vitórias dele. A gente está sempre torcendo pela vitória um do outro.

HG: Mais alguém do alto escalão da Globo chegou a te procurar? Como foi o acolhimento da Globo?
L: A minha única colocação é: como ela [a Globo] pode aprovar, em novos projetos, pessoas que foram expulsas ou pessoas que humilharam outras pessoas lá dentro? Até onde vai essa empatia? Com todo respeito ao trabalho da Karol [Conká], uma excelentíssima artista, mas a Globo a contrata para usar do personagem que cometeu atrocidades no meu BBB. E aí esse personagem é incentivado a existir, e eu acho que isso é um tiro no pé. É desnecessário e até deselegante.

Porque esse personagem despertou gatilhos não só em mim lá dentro ou em outros participantes, mas também em pessoas aqui fora. Nós não podemos incentivar que as pessoas se comportem daquela maneira. Pelo contrário, o que nós precisamos passar para as pessoas é que elas não devem maltratar outras pessoas, independentemente do motivo. E que saúde mental é uma coisa muito séria. E que nós temos que ter responsabilidade emocional antes, durante e depois do ato.

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HG: Você e a Karol chegaram a conversar depois? Como está a relação de vocês?
L: Sim, chegamos a conversar. Subi com ela cantando no palco… O meu pensamento é que a melhor forma de sermos seres humanos melhores não é olhando o problema do outro, e sim para o nosso problema dentro da gente. Então, ela não me devia nada, nem um pedido de desculpas, porque, a partir do momento em que alguém te machuca, cabe a você cuidar de si. O problema que ela tinha para resolver era com ela mesma. Não havia como ela reparar os problemas que ela me causou de maneira alguma. Isso era um trabalho do meu psiquiatra e do meu psicólogo.

HG: A sua saída te impactou em outras áreas da sua vida, financeiramente, por exemplo?
L: Nós assinamos um contrato logo em seguida com a Globo. Mas teve um contrato que o BBB me impediu de fechar, sim. Uma parceria comercial, na época, com algumas marcas. Uma das parcerias foi oferecida por R$ 600 mil, e nós fomos impedidos de fechar porque conflitava com uma empresa que correspondia ao Big Brother. Um patrocínio.

Mas a principal questão emocional que eu sempre reclamo é: eu saí de lá acolhido e, ao mesmo tempo, cancelado. Muita gente discordava de que eu havia sofrido racismo e discordava de que eu havia sofrido homofobia. E, quando esses participantes saem, eles se posicionam ainda com declarações racistas e homofóbicas. Até hoje, diga-se de passagem. E esse tipo de acolhimento eu não tive. Nem da emissora, nem de ninguém. Absolutamente ninguém se posicionou apontando aqueles atos como atos que, literalmente, conotam crimes. Esse seria o principal acolhimento que eu poderia ter recebido naquela época, porque iria demonstrar para a população que ela não deve fazer isso aqui fora.

HG: Você não tem mais contato com ninguém da sua época do BBB?
L: É difícil a gente manter, porque estamos todos trabalhando. Mas encontrei diversos deles. Ninguém quis muita afinidade comigo e eu também não estou atrás de forçar uma amizade com ninguém. Exceto o Gil. Temos uma relação muito boa. Juliette… Durante um tempo, mantivemos uma relação muito boa. Só que é muito trabalho. Então, não tivemos tempo para ficar conversando. A Pocah, eu encontrei em uma festa. A Kerline, eu entrei em contato para conversar com ela. Logo, ela me convidou para participar de um programa. Mas, em seguida, há pouco tempo, ela se posicionou novamente de maneira arbitrária e agressiva, comentando sobre um acontecido que ela descreve de maneira torta, na minha opinião. Até o Nego Di, nós chegamos a conversar. Encontrei o Caio. Encontrei o Projota em um programa de televisão do SBT. Eu não tenho absolutamente nada contra nenhum participante do Big Brother. E nunca tive. Na verdade, foram eles que tiveram contra mim durante o BBB. Desigualmente.

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HG: O que você está achando do BBB 26?
L: É importante que ele seja o reflexo da sociedade. É importante que nós vejamos os atos das pessoas lá dentro como atos que acontecem aqui fora. Porém, nós fechamos os olhos. Mas dentro do BBB não tem como esconder. Como é possível, em um lugar com 200 câmeras, uma pessoa não estar segura? Em questão de violência, eu tô embasbacado. Eu tô impressionado com isso. Só que eu já havia sofrido na pele isso, né? Eu também não estive seguro.

HG: Você já está torcendo por alguém?
L: O meu coração tá dividido. Porque nós temos o Babu [Santana], que é um grandíssimo paizão pra todo jovem negro da periferia e também pra todo artista. Um dos homens que não só me acolheu antes do BBB, mas depois. Um dos homens que acreditaram no meu trabalho, que sempre se preocupou em saber como eu estava, que já me indicou pra projetos. Aí a gente tem a Solange Couto, que foi minha parceira no filme [“Barba, Cabelo e Bigode”]. Ela é uma das divas negras da TV brasileira. Quando pessoas negras ainda estavam lutando por políticas públicas afirmativas simples, essa mulher passa na televisão divinamente, mostrando um trabalho extremamente profissional e possibilitando que outras mulheres negras hoje estivessem no mesmo lugar.

Aí também temos a Sarah [Andrade], que, durante um breve momento no BBB, me acolheu, ficou do meu lado. Não quis participar do momento em que eles decidiram me atingir. Não foi desumana em nenhum dos seus posicionamentos, na minha opinião. Não me ofendeu. Então, ela é uma querida, sim. E nós também temos a Ana Paula, que está lá no BBB fazendo exatamente o que eu tentei fazer. Ela está militando causas que a minha vida milita. A minha existência milita. E por que é aprovado que ela milite? Porque um privilégio das pessoas brancas da alta sociedade é poder se posicionar. Ela está sendo colocada como a futura vencedora por ser uma mulher branca que luta pela causa certa. Quando eu lutei, eu fui cancelado aqui fora. Ela também está dentro aí do meu G4. Eu não estou torcendo para eles. Eu só acho que o justo, nesse BBB, seriam os quatro numa final. Sem contar que eu sou apaixonado por futebol, então, se eu pudesse escolher um quinto, seria o nosso campeão do mundo Edilson Capetinha.

HG: O que você achou da fala da Solange Couto sobre o Bolsa Família?
L: Mais uma deslealdade. Quando uma pessoa negra fala o certo sobre políticas públicas afirmativas, como o Lucas Penteado fez, ela é cancelada. Se ela se posicionar de forma errada, ela também é cancelada. O que eles esperam de nós? Eu sinto muito pelo posicionamento. Só que é o seguinte: num país onde, até ontem, o presidente da República praticava desinformação, é natural que as pessoas tenham uma opinião que desinforme.

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HG: Surgiram muitas comparações com o Pedro, principalmente depois da desistência dele. Como você sentiu essas comparações?
L: Eu senti essas comparações como mais um ato criminoso. Comparar o que eu vivi no BBB com um garoto que, propositalmente, provocou a casa inteira, assediou uma pessoa, é, literalmente, um fato criminoso. Não há comparação nenhuma entre nós. Não há semelhança nenhuma entre nós. Ele fingiu ter crises na frente dos brothers. Não estou dizendo que ele não tem questões psicológicas. Pelo contrário, acredito até que tenha. Mas é injusto. É desleal. Porque, na verdade, eu fui perseguido pela casa. Eu fui humilhado pela casa. Eu fui diminuído pela casa, não foi o contrário. Eu não fiquei tentando perturbar as pessoas de propósito. Eu não fiquei puxando assuntos que fossem indelicados ou pessoais. Pelo contrário, a todo momento, eu tentei, depois daquela festa, me redimir, e, mesmo assim, as pessoas compactuavam uma com a outra para ver como iriam desestabilizar. Então, essa comparação é mais um ato de racismo.

Ele cometeu intolerância religiosa. Eu sofri intolerância religiosa. Quando a Karol gritou, em alto e bom som: ‘Onde está o seu Deus agora?’. Um ato criminoso que não teve posicionamento da produção até hoje. Tem noção do que é? Você já está se sentindo afetado, magoado, excluído, e uma pessoa perguntar para você… [choro] Desculpa, não tenho como não me emocionar com isso. E uma pessoa perguntar para você: ‘Onde está o seu Deus?’. É uma tortura psicológica, porque, naquele momento, foi o único momento que eu me senti sozinho. Durante todo esse tempo, com esse garoto praticando tudo isso, a preocupação das pessoas era acolhê-lo. Era se ele estava bem. Em nenhum momento, as pessoas pensaram isso comigo. Eu não ofendi ninguém. Eu não xinguei ninguém. A única pessoa que eu cheguei a debater foi o Nego Di, quando ele disse que eu estava defendendo o bandido.

Minha intenção não é cancelar a Karol novamente. Pelo contrário, é refletir se nós somos assim aqui fora. Quando eu saí do Big Brother, psicologicamente, eu não queria mais viver. Eu tinha medo não só por ter sido exposto pro mundo quem sou, por ser bissexual, mas eu tinha medo do ódio das pessoas. Porque eram só 19 e elas conseguiram me odiar daquela forma. Como que iam ser os dias? Eu não queria mais sofrer, sabe? E, no meio desse caminho, eu conheci uma pessoa, uma moradora de rua. Ela sentou do meu lado e veio conversar comigo como se me conhecesse. A forma que ela estava falando, eu senti que foi o Espírito Santo vindo falar comigo. Então, uma coisa que eu queria dizer: agarre-se na sua religião, seja ela qual for. Existem coisas nesse mundo que a gente talvez não consiga resolver. Mas, religiosamente falando, tem um Deus Todo-Poderoso lá em cima e os nossos orixás pra nos defenderem de coisas que não estão no nosso poder.

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HG: Você sempre falou abertamente sobre a sua experiência nos narcóticos anônimos… Quando foi que você teve essa virada de ‘eu preciso mudar a minha vida’?
L: Eu tenho uma doença progressiva, incurável e fatal, chamada adicção. O importante é eu estar limpo no dia de hoje. Eu já havia sido questionado pela minha família sobre essa doença, eu já havia passado em psicólogo e psiquiatra, mas nunca havia sido diagnosticado com ela. Depois do Big Brother, eu tive algumas internações… Não posso dizer que foi por conta do Big Brother, mas posso dizer que o que sofri lá dentro ajudou muito com isso. Porque eu já estava acostumado a lutar contra a homofobia, a bifobia aqui fora. Mas aquela situação vexatória que me impuseram quando eu saio do beijo [com o Gil], de um momento feliz, de um momento emocionante, de um dos momentos mais importantes da TV brasileira… Eu olho para as pessoas e elas estão enojadas com aquela situação e elas estão indignadas com aquela situação. Eu perdi o meu chão. Quando saio do BBB, eu saio muito pior psicologicamente do que eu entrei.

Tive apoio da Globo para isso. A Globo financiou três das minhas internações. Quando eu digo que a Globo financiou, eu digo que foi o seguro de saúde previsto no meu contrato. Então, tecnicamente, quem pagou fui eu. Mas a Globo me prestou todos os apoios que eram necessários. Nunca virou as costas para a minha saúde. Pelo contrário, acho até que eles estenderam o meu contrato para que eu me sentisse seguro e abraçado para conseguir lutar contra isso.

Mas é uma doença e eu vou ter que lutar contra ela para o resto da minha vida. E eu queria lançar um alerta: isso não é problema só do adicto, isso é um problema de saúde pública. Então, eu imploro aos nossos representantes políticos e governantes que comecem a pensar em projetos que acolham os nossos filhos, as nossas mães, os nossos pais que estão nas ruas, nesse momento, trocando um prato de comida quente por uma droga depressiva e que são tratados com desdém. Essas pessoas estão doentes. Elas precisam de ajuda. Quando nós nos posicionamos sobre os problemas do mundo, também estamos falando sobre nós, porque fazemos parte desse mundo.

HG: Quais são seus próximos planos? Tem algum projeto de cinema ou na TV?
L: Nós fomos procurados por alguns partidos políticos. Ofereceram propostas e espaço político: o Partido dos Trabalhadores, o Partido Avante, o Partido Solidariedade. Nós ainda não tomamos a decisão de qual partido, mas tomamos a decisão de que, sim, iremos participar, se Deus permitir, das eleições de 2026. Não sabemos ainda para qual cargo que nós gostaríamos de participar e também nem poderíamos falar diretamente, graças à Justiça Eleitoral, mas fomos procurados para a pré-candidatura a deputado federal.

Caso, obviamente, não conflite com o artístico, porque é o nosso momento, é o principal momento da minha carreira. Tenho três filmes que vão ser lançados, provavelmente, esse ano. Dois filmes com o diretor Hsu Chien: “A Banda”, que é comigo, Luísa Perissé e Lucas Salles; e “Os Emergentes”, que está com um elenco fantástico. Também tem “Senhoras”, com a Nívea Maria e Zezeh Barbosa. E estamos passando nos cinemas do Japão. Ganhamos prêmios do outro lado do mundo com “Nosso Sonho”.

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HG: Como tá sendo essa experiência? Algum dia você imaginou que iria alcançar um público internacional?
L: [choro] Eu nunca tinha imaginado isso. Eu sou o jovem que ocupou as escolas para o meu país ter uma educação digna de direito e fui perseguido pela polícia por isso. Eu fui o jovem que ocupou o Ministério da Cultura e a Funarte para que um presidente arbitrário não fechasse o Ministério da Cultura, e fui perseguido por isso. Eu nunca imaginei, naquela época em que eu não tinha nem o que comer, que um dia eu ia, com o meu trabalho, passar do outro lado do mundo. Que eu ia passar num local onde os melhores desenhos foram criados. Porque eu cresci assistindo aos desenhos de lá. E hoje eu estou podendo falar um pouco do meu país através desse filme.

Fora isso, eu queria lançar aqui para os jovens que acreditam… Não é fácil, mas, nesse momento, provavelmente você, lendo essa matéria, possa estar desesperado, pensando em largar até sua vida idônea para não sofrer mais. Mas, jovem, acredite: nós chegaremos a um país igualitário. Você vai conseguir, eu tenho certeza absoluta de que você vai. Porque a principal luta é por você. Então, no momento em que você não desistir dos seus sonhos, a nossa luta venceu. [choro] Eu desisti da minha vida tantas vezes. Então, o que eu peço para você, jovem negro da periferia ou de qualquer lugar do planeta: não desista da sua vida. Você vai ver a sua vitória um dia. Porque a vitória é viver.

HG: Quais serão suas pautas de campanha?
L: Uma das propostas veio de São Paulo, mas nós recebemos também propostas no Rio de Janeiro. E, falando sobre São Paulo, eu acho que o principal fator, nesse momento, é entender que o país está doente, psicologicamente falando. E que nós precisamos de medidas imediatas de acolhimento. Porque não é do conhecimento de todos e não é de fácil acesso. Fora isso, precisávamos investir nos nossos jovens e na tecnologia na educação dos nossos jovens. A educação e a saúde mental dos nossos jovens são um fator também imediato. É muito voltado à saúde, até por eu ter tido contato direto com a falta de acesso à saúde aqui em São Paulo, com o negacionismo.

Nós precisamos investir na cultura porque, até o momento, ela é um dos únicos veículos educacionais que são funcionais na periferia. Enquanto pessoas atacam o funk, atacam o rap e atacam artistas da periferia, eles são os únicos que estão entregando seu tempo e até suas vidas para se manterem vivos, mas ainda assim lutam pela população. Essas pessoas que se preocupam com pessoas precisam ser vistas pelo governo. Precisam, sim, de incentivos. Porque, quando a gente fala sobre incentivo, quem vem usando, de forma negligente, são pessoas privilegiadas. Nós precisamos lutar para que os benefícios que o governo pode oferecer cheguem nas pessoas certas. E, para que isso seja possível, fiscalização é a palavra. E, quando eu digo fiscalização, eu não estou falando das pessoas que estão recebendo esses benefícios. Eu estou falando dos deputados, dos vereadores, dos prefeitos, do governo federal, porque eu preciso que exista fiscalização de como que esse dinheiro sai, para onde ele sai, para quem.

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Nós precisamos de mais pessoas nessa luta porque, quando estamos sozinhos, a gente está inseguro. Orem e olhem por mim, porque eu não vou desistir de lutar. Independentemente de cargo político ou não, estarei aqui lutando. Que o povo não permita que existam novas Marielles, que o povo não permita que existam mortes de pessoas que lutam pela humanidade. Sendo um ativista, a gente sempre está em constante ameaça. No dia de ontem, invadiram a casa da minha avó e cortaram o cano do gás que fornece gás encanado para a nossa casa. Foi alguém simplesmente fazendo isso para roubar o cano ou uma tentativa de explodir a minha casa? Nós não sabemos. Quando nós lutamos por políticas públicas afirmativas, nós nos colocamos em risco. Então, quando eu digo “olhe por mim e ore por mim”, eu estou falando sério. Não deixem pessoas que lutam pela humanidade sozinhas. Elas estão realmente correndo risco.

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