SBT suspende Marcão do Povo após comentário do apresentador em cobertura do coronavírus: ‘Nossas sinceras desculpas’; saiba detalhes

O SBT anunciou nesta quarta-feira (8) que o apresentador Marcos Paulo Ribeiro de Morais, mais conhecido como Marcão do Povo está suspenso de suas funções no matinal “Primeiro Impacto”. A decisão vem um dia após o jornalista sugerir no ar, que o governo brasileiro deveria construir um “campo de concentração” para os infectados pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2).

Gostaríamos de esclarecer ao público, às autoridades, àqueles que estão na linha de frente ao combate incessante da pandemia e, em especial, às pessoas vitimadas, que de forma alguma a opinião expressada pelo apresentador reflete o pensamento, a atitude e o respeito que a emissora tem pelo momento atual“, declarou o canal, em comunicado assinado pela diretoria.

A empresa se desculpou pelo episódio. “Lamentamos que o apresentador tenha usado nossa plataforma de modo que contraria tão profundamente os nossos princípios. A todos que de alguma forma possam ter se ofendido ou mesmo se indignado com as opiniões pessoais do apresentador, nossas mais sinceras desculpas“, pontuou.

Os comentários nos bastidores do SBT são de que Marcão deverá ficar afastado do seu posto pelos próximos 15 dias. Nesse período, o popularesco será apresentado apenas por Dudu Camargo e Márcia Dantas.

Confira a íntegra do comunicado: 

Caros,

Ontem, durante a exibição do programa jornalístico Primeiro Impacto, o apresentador Marcos Paulo Ribeiro de Morais, popularmente conhecido como Marcão do Povo, se utilizou do espaço em nosso jornal para expressar uma opinião de cunho pessoal que dizia respeito ao tema tão delicado que o mundo e nosso país atravessam: a COVID-19.

Gostaríamos de esclarecer ao público, às autoridades, àqueles que estão na linha de frente ao combate incessante da pandemia e, em especial, às pessoas vitimadas, que de forma alguma a opinião expressada pelo apresentador reflete o pensamento, a atitude e o respeito que a emissora tem pelo momento atual. Temos total consciência da relevância do assunto e temos, a todo momento, nos preocupado em informar e esclarecer de forma isenta e imparcial os acontecimentos e as providências que as autoridades e todos brasileiros estão adotando para vencermos essa enorme crise de saúde já presente, e a econômica que se avizinha.

Desta forma, sinceramente lamentamos que o apresentador tenha usado nossa plataforma de modo que contraria tão profundamente os nossos princípios. A todos que de alguma forma possam ter se ofendido ou mesmo se indignado com as opiniões pessoais do apresentador, nossas mais sinceras desculpas.

Nossos profissionais de Jornalismo seguirão na dura missão de bem informar, sempre preocupados com o bem estar de todos os brasileiros.

O apresentador foi suspenso de suas funções.

Respeitosamente,

A Diretoria

Entenda o caso

Marcão tem causado revolta nas redes sociais desde a edição desta terça-feira (7) do ‘Primeiro Impacto’. Ao falar sobre a pandemia do novo coronavírus, o jornalista sugeriu que fossem criados campos de concentração para abrigar todos os diagnosticados com Covid-19.

Mesmo com mais de 13 mil casos e 667 mortes confirmadas ao redor do país, o apresentador afirmou que seria interessante criar um local para abrigar todas essas pessoas. “Na China, na cidade de Wuhan, pessoas que estavam com o coronavírus foram levadas e colocadas nessa cidade. Montaram vários hospitais e as pessoas foram tratadas naquele local”, comparou ele, citando uma ‘fake news’. Na verdade, o país não levou pessoas para lá e, sim, interditou a cidade central de 11 milhões de habitantes.

Não obstante, Marcão, seguiu, fazendo um pedido para o presidente Jair Bolsonaro. “Atenção, presidente! Não seria interessante montar um local aonde todas as pessoas que tivessem os sintomas, que tivessem o coronavírus, fossem levadas e bem cuidadas, bem tratadas ao invés de espalhar da maneira que está sendo aí? Todos os lugares montando, um gasto excessivo, as cidades paradas. Não seria interessante um local só para cuidar dessas pessoas?”, indagou, utilizando na sequência, o termo ‘campo de concentração’.

“Não seria interessante pegar, por exemplo, o Exército, Marinha e Aeronáutica e montar um campo de concentração, de cuidado, com equipamentos mais sofisticados, com os melhores profissionais e colocar essas pessoas com problemas, sintomas?”, sugeriu.

Ele, então, questionou o modo com que a doença está sendo tratada nos estados brasileiros. “Aí, presidente, acaba esse negócio de espalhar dinheiro para os estados. Aí acaba vários governadores… tem estado que não teve nada, um caso que nem sequer foi comprovado, a pessoa não está nem internada e o estado decretou calamidade. Tocantins é um caso. Um caso no Tocantins, não teve uma morte. O estado tem necessidade de decretar calamidade? Não tem necessidade disso”, afirmou.

“É despesa para o bolso do cidadão, para o bolso do trabalhador que já está ferrado. Então, presidente, é uma dica. O senhor é presidente da República. Dá um decreto, põe o Exército nas ruas, Marinha e Aeronáutica. E aí, o governador que descumprir, faz igual está fazendo com o povo: cana. Monta um campo, um local adequado e trata essas pessoas lá e o comércio abre normalmente. Quem apresentou o sintoma, leva para lá. Mantém a pessoa em isolamento, bem cuidada, bem tratada. É uma ideia que eu estou dando e a população pode concordar ou não, e o presidente pode acatar ou não”, completou. Assista:

A referência a “campos de concentração” é, no mínimo, preocupante. Os centros criados pela Alemanha nazista de Adolf Hitler eram responsáveis por aprisionar e promover o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em alguns deles, os judeus eram executados em câmaras de gás.

Na época, conhecida como Holocausto, estima-se que foram mortas pela ação dos nazistas cerca seis milhões de pessoas judias. Devido a falhas de registro, o número provavelmente é ainda maior. Atualmente, a Alemanha mantém o empenho de explicar os horrores produzidos por Hitler e seus aliados desde a infância da população.

Marcão do Povo causou revolta nas redes com a declaração (Foto: Reprodução/SBT; Getty)

Questionada, na manhã desta quarta (8), pelo hugogloss.com, a emissora cujo dono, Silvio Santos, é descendente de judeus, afirmou que “não se responsabiliza pelas opiniões pessoais de seus contratados e artistas”. “A opinião do contratado não reflete a posição da emissora”, reforçou. Na ocasião, o hugogloss.com estranhou que o SBT não se responsabilizasse ou não repudiasse algo que foi dito no ar, no próprio canal , que opera, como se sabe, através de uma concessão pública. Como resposta, a empresa alegou: “O jornalista tem liberdade de expressão“. Provavelmente a emissora teve dificuldades em distinguir liberdade de libertinagem.

Revolta nas redes

Na web, Marcão do Povo foi duramente criticado. O termo “campo de concentração” passou horas entre os assuntos mais comentados do Twitter. “Você não PROPÕE, não sugere, não menciona NA TV em nenhuma circunstância a ideia de fazer ‘campos de concentração’, com ‘atendimento, hospital ou o que quer que seja’. Nem que tenha hotel cinco estrelas. GENTE, CAMPO DE CONCENTRAÇÃO pra pandemia”, indignou-se a jornalista Rosana Hermann.

“Ver jornalista falando em ‘fazer um campo de concentração’ para infectados com o coronavírus mostra definitivamente que tem muita gente precisando estudar mais história”, declarou a página ‘Quebrando o Tabu’. “Bicho, você não pode desassociar os termos de suas implicações históricas, sabe? ‘Campo de concentração’ não é só um campo, ‘navio negreiro’ não é só um navio. Os termos carregam suas histórias e elas representam momentos terríveis para a humanidade. Tem de ter sensibilidade”, afirmou o jornalista William De Lucca.

“Um apresentador de um telejornal do SBT sugeriu um campo de concentração para isolar as pessoas infectadas pelo coronavírus. E depois? Vão matar elas em uma câmara de gás igual os nazistas fizeram com os judeus? Jornalista imbecil!”, revoltou-se uma internauta. “Quando você tá explanando sua ideia e, de repente, você usa o termo ‘campo de concentração’ para defini-la, é hora de parar, pedir desculpas, refletir e pedir ajuda”, completou outro.

Outras polêmicas

Esta não é a primeira vez que Marcão do Povo envolve-se em uma polêmica. Em 2017, ele chamou a cantora Ludmilla de “macaca” e o caso foi parar na justiça. Na época, ele era apresentador do Balanço Geral DF, da Record, e foi demitido pela emissora. Logo depois, entretanto, o jornalista foi contratado pelo SBT para ser âncora do ‘Primeiro Impacto’, popularesco que comanda até hoje.

Em novembro do ano passado, ele voltou a causar indignação após mostrar a história de um rapaz que tentava suicidar por conta de uma suposta traição da esposa. Na exibição do ocorrido, o caso sério foi tratado com tom de deboche e virou alvo de piada pelos jornalistas… Poucas horas depois do fim do noticiário, o homem concluiu seu objetivo e foi encontrado morto dentro de casa.