Polícia revela ao Fantástico como técnico de enfermagem causou mortes em hospital no DF após injeção de desinfetante; assista

Jornalístico reconstituiu os crimes ocorridos no Hospital Anchieta

O "Fantástico" exibiu a reconstituição pericial dos crimes ocorridos no Hospital Anchieta, no Distrito Federal. Um técnico de enfermagem, Marcos Vinicius de Araújo, foi preso acusado de matar pacientes na UTI. A investigação revela imagens, prisões e posicionamentos.

O “Fantástico” deste domingo (25) fez uma reconstituição dos crimes cometidos, em novembro de 2025, dentro do Hospital Anchieta, no Distrito Federal. O técnico de enfermagem Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, foi preso acusado de matar três pessoas ao injetar uma substância controlada e também desinfetante em pacientes internados na UTI.

A unidade de saúde abriu uma sindicância para investigar o que aconteceu em 17 de novembro, quando dois pacientes, Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, e João Clemente Pereira, de 63, tiveram paradas cardíacas e morreram horas depois. Miranilde havia sido internada devido a uma constipação. João sentia tonturas quando foi ao hospital, onde foi diagnosticado com um hematoma na membrana que reveste o cérebro.

Até então, a polícia acreditava que Marcos Vinicius havia aplicado desinfetante apenas em Miranilde, que ocupava o leito 24. No entanto, ao reanalisar as imagens, as autoridades descobriram que ele também injetou o produto em João. Cada leito da UTI é monitorado por uma câmera de segurança.

Ele, toda vez que injetou alguma medicação na veia dos pacientes, em segundos elas apresentaram paradas cardíacas“, disse o delegado responsável, Wislley Salomão. “A consequência disso é um choque circulatório, ou seja, uma pressão muito baixa para esses pacientes, consequentemente uma parada cardíaca imediata. Se o paciente tiver acordado, consciente, ele vai sentir o que nós chamamos de sensação de morte: dor no peito, falta de ar, uma angústia muito forte“, detalhou o presidente da Associação de Medicina Intensivista Brasileira, Alexandre Amaral.

Marcos Vinicius foi preso acusado de matar três pessoas. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Reconstituição pericial 

Na manhã do dia 17, Miranilde estava consciente e conversando. Uma hora depois, as câmeras mostram o técnico de enfermagem usando a senha de médicos que não estavam no hospital para registrar no sistema, a prescrição de uma substância controlada. Ele foi até a farmácia da UTI para buscar o medicamento, que não havia sido prescrito para Miranilde. Na sequência, Marcos Vinicius aplicou a primeira injeção. A paciente sofreu uma parada cardíaca, foi socorrida e sobreviveu.

A substância era o cloreto de potássio, que tem indicações médicas específicas, como a reposição de potássio no organismo. “Um grande dano que ele pode causar ao organismo são as arritmias cardíacas graves. A depender da concentração que é feita, a depender da velocidade que é feita, ele para o coração“, afirmou Amaral.

Cerca de 40 minutos depois, Marcos Vinicius aplicou uma segunda dose do medicamento. Miranilde sofreu nova parada cardíaca, foi socorrida e sobreviveu novamente. Os filhos dela estavam na unidade de saúde. “Cada reanimação, ele aplicava alguma coisa, até mesmo na frente dos médicos, e ninguém percebia nada. Eu pensando que ele estava salvando a minha mãe. Ele estava matando cada vez mais a minha mãe“, relembrou uma das filhas da vítima, Kássia Leão.

Três vítimas que estavam na UTI do Hospital Anchieta. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Ainda segundo a perícia, horas depois, o técnico conseguiu injetar cloreto de potássio em João, que sofreu uma parada cardíaca, foi socorrido e sobreviveu. Marcos Vinicius, então, retornou ao leito de Miranilde e aplicou mais uma injeção, provocando uma terceira parada cardíaca, da qual ela foi salva pela equipe. Pouco tempo depois, ele aplicou o desinfetante, que ocasionou a quarta parada cardíaca na paciente. Em seguida, Marcos Vinicius injetou desinfetante novamente, provocando a morte de Miranilde.

Na mesma noite, o técnico fez mais duas aplicações de cloreto de potássio em João e também injetou desinfetante. O paciente morreu na madrugada do dia seguinte. Conforme as investigações, Marcos Vinicius contou com a ajuda de outras técnicas de enfermagem: Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos, e Amanda Rodrigues de Sousa, de 28. Ele aplicou o desinfetante em Miranilde diante delas e os três participaram dos procedimentos de ressuscitação. As duas também estão presas.

A terceira vítima foi o carteiro Marcos Raymundo Moreira, internado em 18 de novembro com sintomas de pancreatite. Denilza da Costa Freire, viúva de Moreira, contou ao jornalístico que o cardiologista “descartou hipótese de problemas cardiológicos“. No entanto, ele também sofreu uma parada cardíaca, foi intubado e ficou internado por 14 dias. Segundo a polícia, Moreira teve uma segunda parada em 1º de dezembro e morreu depois de receber uma injeção aplicada por Marcos Vinicius.

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Depoimentos e defesas

Marcos Vinicius está preso temporariamente na carceragem do complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. Em seu primeiro depoimento, ele negou ter cometido os três crimes. No entanto, ao ser confrontado com imagens das câmeras da UTI, acabou admitindo as mortes, conforme as autoridades.

No depoimento, ele foi uma pessoa que não demonstrou emoção. Ele alegou que teria praticado os crimes porque o hospital estava muito movimentado. Como essa justificativa não é plausível, ele deu uma segunda justificativa, falando que estaria aliviando a dor dos pacientes. Isso também não é uma motivação. Então nós precisamos aprofundar para saber o real motivo que fez com que ele e essas duas técnicas cometessem esse crime“, relatou Salomão.

Marcela e Amanda foram levadas para a penitenciária feminina. “As duas presenciam o técnico injetando tanto a medicação quanto o produto diretamente na veia dos pacientes e não fizeram nada para impedir aquele resultado“, disse o delegado.

Marcos Vinicius e as duas técnicas de enfermagem. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Em nota, a defesa de Marcos Vinicius não negou a acusação, mas garantiu que vai se manifestar apenas no inquérito, que corre sob sigilo. A defesa de Marcela informou que ela lamenta o que aconteceu com as vítimas, e que a dignidade dela e a verdade serão restabelecidas no processo. Já o advogado de Amanda disse que ela e Marcos Vinicius tiveram um relacionamento.

Ela se sente assim: manipulada por ele. E isso não quer dizer que ela tenha cooperado em nada com ele. Ela diz manipulada porque ela teve um relacionamento com ele“, declarou Liomar Santos Torres. “Nega participação e nega as acusações, e nós vamos provar isso ao final do processo“, falou.

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Conselho e Hospital

Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do DF admitiu preocupação com a repercussão do caso e disse que generalizações prejudicam uma categoria formada por profissionais éticos e comprometidos com a vida. Já o Hospital Anchieta afirmou que “se solidariza com os familiares das vítimas e repudia veementemente os atos criminosos investigados“.

A unidade de saúde apontou ainda que o caso trata-se de uma “conduta individual de criminosos, praticada à revelia do estabelecimento, dos valores da medicina e da assistência em saúde, rapidamente identificada, investigada e neutralizada, com o imediato acionamento das autoridades competentes“.

Assista à reportagem completa:

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