Nesta segunda-feira (26), o rapper Kanye West publicou uma carta aberta na edição impressa do The Wall Street Journal, para se retratar por falas antissemitas e apologia ao nazismo. O documento, um anúncio publicitário de página inteira, estampa a contracapa da edição de hoje, na seção A, e se dirige “a todos que eu magoei”.
Na retratação, West tenta explicar seu comportamento errático e alarmante nos últimos anos, incluindo explosões públicas que levaram críticos e fãs a acusá-lo de antissemitismo. Kanye, que mudou legalmente seu nome para Ye em 2021, inicia o pedido de desculpas relembrando um acidente de carro ocorrido em 2002, que, segundo ele, teria sido o ponto de partida de todos os seus problemas.
“A todos que eu magoei: Há vinte e cinco anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco estava nos danos visíveis — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida. Exames completos não foram realizados, as avaliações neurológicas foram limitadas e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. Ela só foi diagnosticada corretamente em 2023. Essa falha médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1”, começou o cantor.
Ele prosseguiu explicando os sintomas que passou a conviver antes do diagnóstico. “O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa: a negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acredita que todos os outros estão exagerando. Você sente que está enxergando o mundo com mais clareza do que nunca, quando, na realidade, está perdendo completamente o controle. Quando as pessoas passam a rotular você como “louco”, você sente que não pode contribuir com nada de significativo para o mundo”, desabafou.

Kanye também expôs o que, em sua opinião, seria a consequência mais grave da doença: “É fácil para as pessoas fazerem piada e rirem disso, quando, na verdade, trata-se de uma doença muito séria e debilitante, da qual se pode morrer. (…) A parte mais assustadora desse transtorno é o quão convincente ele pode ser ao dizer: você não precisa de ajuda. Ele te cega, mas te convence de que você tem clareza. Você se sente poderoso, seguro, imparável”.
O artista ainda afirmou que a condição o fez perder completamente sua identidade. “Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais tempo ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que mais amo foram as que tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, em certos momentos, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me desconectei do meu verdadeiro eu”, declarou.
Nos últimos anos, a postura provocadora de Ye passou a assumir contornos cada vez mais graves. Em 2018, o artista causou revolta ao afirmar que a escravidão teria sido “uma escolha”. Já em 2022, fez sucessivas falas e referências antissemitas, incluindo uma participação no podcast Infowars, na qual elogiou Adolf Hitler e negou o Holocausto. Ele também publicou uma suástica nas redes sociais, o que resultou em sua suspensão do X (antigo Twitter). Em 2025, Ye voltou a gerar controvérsia ao lançar a música “Heil Hitler”, entre outras atitudes duvidosas.
Na carta, West tentou justificar as ações afirmando que elas seriam resultado do transtorno não tratado. “Nesse estado fragmentado, me agarrei ao símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei a vender camisetas com ela. Um dos aspectos difíceis de conviver com o transtorno bipolar tipo 1 são os momentos desconectados — muitos dos quais ainda não consigo lembrar — que levaram a julgamentos ruins e comportamentos imprudentes, que muitas vezes parecem uma experiência fora do corpo. Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e uma mudança real. Isso, porém, não justifica o que fiz”, escreveu.
“Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu. À comunidade negra — que me sustentou em todos os altos e baixos e nos momentos mais sombrios. A comunidade negra é, sem dúvida alguma, a base de quem eu sou. Sinto muito por tê-los decepcionado. Eu amo nós [sic]“, declarou o cantor.
Kanye então relembrou uma das fases mais delicadas da doença. “No início de 2025, entrei em um episódio maníaco de quatro meses, marcado por comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que destruíram minha vida. À medida que a situação se tornava cada vez mais insustentável, houve momentos em que eu não queria mais estar aqui. Ter transtorno bipolar é viver em um estado constante de doença mental. Quando você entra em um episódio maníaco, você está doente naquele momento. Quando não está em um episódio, você é completamente ‘normal’. E é aí que os destroços da doença atingem com mais força”, explicou.

O artista revelou que foi a esposa, Bianca Censori, quem o incentivou a procurar tratamento. “Ao chegar ao fundo do poço há alguns meses, minha esposa me incentivou a finalmente buscar ajuda. Encontrei conforto, de todas as formas possíveis, em fóruns do Reddit. Pessoas diferentes relatam estar passando por episódios maníacos ou depressivos de natureza semelhante. Li suas histórias e percebi que não estava sozinho. Não sou apenas eu que destrói a própria vida inteira uma vez por ano, apesar de tomar medicamentos todos os dias e ouvir dos chamados melhores médicos do mundo que não sou bipolar, mas apenas apresento ‘sintomas de transtorno do espectro autista’. Minhas palavras, como líder da minha comunidade, têm impacto e influência globais. Em minha mania, perdi completamente a noção disso”, pontuou.
O cantor concluiu, ressaltando que tem buscado equilíbrio e reconstrução: “À medida que encontro um novo equilíbrio e um novo centro por meio de um regime eficaz de medicação, terapia, exercícios e vida saudável, adquiri uma clareza nova e muito necessária. Estou canalizando minha energia para uma arte positiva e significativa: música, roupas, design e outras novas ideias para ajudar o mundo. Não estou pedindo simpatia nem um passe livre, embora queira conquistar o perdão de vocês. Escrevo hoje apenas para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa. Com amor, Ye”.
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