O apresentador Ratinho fez um acordo para encerrar o processo movido pela bailarina Cíntia Cristina de Mello. Ela o acusou de racismo e pediu uma indenização de R$ 2 milhões por danos morais. Segundo informações obtidas por Gabriel Vaquer e Rogério Gentile, da Folha de S. Paulo, a Justiça realizou a homologação na semana passada.
De acordo com os jornalistas, os valores não foram divulgados por conta de uma cláusula de confidencialidade fechada entre as partes. O acordo ainda proíbe manifestações públicas e a ação tramita sob segredo de justiça. Procurado por Vaquer e Gentile, o apresentador afirmou através de sua assessoria que não comenta ações judiciais.
O processo se tornou público em dezembro de 2025, através da coluna de Daniel Nascimento, do jornal O Dia. Segundo Cíntia, o episódio aconteceu durante uma edição do “Programa do Ratinho”, exibida em 1º de abril de 2024. Na época, ela ainda integrava o balé da atração, função que desempenhou por quase nove anos.
Na ocasião, Ratinho sugeriu que Cíntia tivesse piolho e pediu para a assistente de palco chacoalhar os fios, conferindo se era uma peruca. “Cíntia, essa peruca sua é a mais bonita“, disse ele. “Mas não é peruca, é meu cabelo. Hoje realmente é o meu“, devolveu a bailarina. “Não é seu cabelo! Eu vi um piolhinho aqui, puxa o cabelo dela, Milene“, pediu o veterano. “Então é bonito. Mas eu achei que era uma peruca“, concluiu o apresentador, ao notar que se tratava, de fato, do cabelo dela.

No processo, a bailarina afirmou que a fala ao vivo a expôs nacionalmente, gerou humilhação, repercussão negativa e comentários ofensivos nas redes sociais. Cíntia disse que procurou o apresentador para dizer que havia se sentido ofendida, mas não recebeu o pedido de desculpas. Conforme a versão apresentada por Mello, Ratinho teria tratado a queixa como “mimimi”.
Os advogados da bailarina, Cristiane Linhares e Ed Matos da Silva, sustentaram que os comentários ultrapassaram o limite de uma brincadeira. “Não há dúvida de que se trata de insulto que fere gravemente a honra dos negros, pois constitui desprezo e ataque injustificável à personalidade e à identidade dos indivíduos, que resulta em sofrimento, constrangimento e profundo abalo moral“, afirmaram na ação.
Poucos dias após o ocorrido, Cíntia pediu demissão do SBT e definiu o episódio como “racismo recreativo”. “A triste realidade é de que há inúmeras práticas racistas naturalizadas em nosso cotidiano, materializadas em microagressões, que partem de comportamentos que, de tão enraizados, são, por vezes, inconscientes“, afirmou à Justiça.
Ratinho e a emissora negaram qualquer ato discriminatório e argumentaram que o episódio não passou de uma “brincadeira típica do formato humorístico do programa“. Na ação, o apresentador alegou ter feito apenas uma brincadeira com a bailarina, “com quem possuía um grande laço de amizade“, e disse que a própria Cíntia lhe enviou mensagens de áudio afirmando que a situação não teve cunho racista.
“A brincadeira não foi e não pode ser considerada ataque racista ou ‘racismo recreativo’, simplesmente porque não possuía qualquer ligação com o fato de a autora do processo ser uma mulher preta“, declarou a defesa do apresentador à Justiça. “Ela deixou claro em suas mensagens que sabia que não houve qualquer ilicitude praticada por Ratinho, mas que estava sendo pressionada por grupos raciais a ingressar com a ação“, completou.
Relembre o episódio:
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques