Allan Ruiz, que atua no mercado imobiliário desde 2009, achou que tinha comprado apenas mais um prédio abandonado na Zona Central de São Paulo. No entanto, em entrevista ao site “Metro Quadrado”, ele contou que após colher informações sobre o imóvel e seus elementos arquitetônicos, acabou descobrindo uma verdadeira relíquia da história da capital paulista.
Em seu relato, Ruiz explicou que passou os últimos sete anos mapeando edifícios para investidores interessados em projetos de retrofit – modernização e revitalização de edificações antigas – antes de tocar um empreendimento sozinho. “Eu estava de olho em alguns imóveis e abriu uma janela de oportunidade de comprar esse em específico“, contou.
O empresário, então, encontrou na rua Roberto Simonsen – uma das mais antigas da cidade – um prédio abandonado que havia sido adquirido por um empresário em 2020 e mantido fechado. No entanto, o proprietário não tinha a documentação completa, as plantas ou qualquer confirmação de que o imóvel possuía Habite-se – certidão emitida pela Prefeitura que atesta a construção ou reforma de um imóvel de forma segura.
O prédio também não apresentava infraestrutura elétrica ou hidráulica. Mesmo diante dessas dificuldades, Ruiz concretizou a compra do imóvel e, logo, pediu o desarquivamento de documentos na Prefeitura. Ele recebeu um Habite-se de 1961, referente a uma reforma que desconfigurou o pavimento térreo para a abertura de uma loja comercial, plano posteriormente descartado.

Segundo o empresário, os elementos arquitetônicos pré-modernistas chamaram a sua atenção. De fora, o imóvel apresenta uma fachada em estilo eclético. Já em seus interiores, abriga um salão com pé-direito duplo e janelas amplas, além de vitrais coloridos destacados pela luz natural.
Outra característica marcante é o tijolo da estrutura, que lembra o estilo da Pinacoteca, um dos mais importantes museus de arte do Brasil e o mais antigo do estado de São Paulo. O tijolo, inclusive, continha a marca de uma olaria e foi essencial para Ruiz se aprofundar na pesquisa sobre o prédio.
Relíquia paulista
Depois de conversar com a historiadora e arqueóloga Angélica Moreira da Silva, responsável pela Tijoloteca – que reúne uma coleção de tijolos no Centro de Arqueologia de São Paulo, ele descobriu não apenas a origem daqueles tijolos, mas também a autoria do edifício: Ramos de Azevedo.
Nascido em 1851, Ramos de Azevedo foi um dos maiores engenheiros e arquitetos do século XIX, sendo responsável por marcos arquitetônicos da capital paulista, como o Theatro Municipal, o Palácio da Justiça, o Mercado Municipal e a própria Pinacoteca. O imóvel adquirido por Ruiz era a antiga Policlínica e sede da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.
“Eu fiquei chocado. Ela me mandou um trecho de um livro que ela tinha com as atas da Policlínica de 1895 a 1941. Em um dos capítulos dizia que, em 1916, eles tinham contratado o escritório do Ramos de Azevedo para fazer o projeto deste edifício“, destacou o empresário.

A certeza veio após Ruiz recorrer ao Arquivo Histórico Municipal, onde encontrou as plantas originais, o memorial descritivo e a assinatura do próprio Azevedo. “Fiquei fascinado com aquela planta, estava em perfeito estado. A confirmação veio quando eu vi o documento de fato assinado por Ramos de Azevedo, tudo certinho“, revelou.
A Policlínica funcionou ali de 1919 a 1939. Depois disso, o imóvel passou a pertencer à Caixa Econômica Federal por conta das dívidas e ficou vazio durante 85 anos. “É triste pensar que ele ficou todo esse tempo abandonado, mas, por outro lado, não sofreu o estresse de uso. Então, acabou conservado“, afirmou.
Diante das descobertas, os planos de transformar o edifício em residencial mudaram para a criação de uma área cultural, ainda mais pelo fato do imóvel estar a poucos metros de outros locais importantes da cidade, como o Solar da Marquesa de Santos, a Casa Número Um, o Pateo do Collegio, o Museu das Favelas, a Caixa Cultural São Paulo e o Edifício Rolim. “A região é um polo cultural e turístico. Então, o prédio tem essa vocação. Depois que eu descobri que esse projeto era do Ramos de Azevedo, minha responsabilidade aumentou e senti que a população deveria ter acesso a esse lugar“, explicou.
O empresário estuda agora maneiras de viabilizar financeiramente a reforma, buscando profissionais para conduzir o projeto, enquanto divulga nas redes sociais e organiza visitas guiadas com estudantes e interessados na arquitetura.
“Sendo bem sincero, eu não pretendo alterar muito. Algumas coisas talvez eu tenha que adaptar para acessibilidade, incluindo o elevador antigo. Mas tudo o que eu quero é manter o máximo possível do original, inclusive a estética de ruínas que ele tem hoje“, contou. “Ver a reação dessas pessoas que dedicam a vida à arte me deixa nas nuvens“, completou.
Assista a uma das visitas:
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