Regina Casé desabafa sobre nudez em filme na década de 70: ‘Me senti usadíssima’; assista

Atriz também refletiu sobre como os padrões estéticos definiram seus trabalhos e disse se sentiu a pressão para corresponder a eles

Regina Casé admitiu ter se sentido usada ao protagonizar cenas de nudez em um filme na década de 1970, época em que as pornochanchadas brasileiras fizeram sucesso. A atriz entregou o que mais a incomodou nos bastidores e refletiu sobre a representação da mulher no audiovisual.

Regina Casé admitiu ter se sentido usada ao protagonizar cenas de nudez em um filme na década de 1970, época em que as pornochanchadas brasileiras fizeram sucesso. Em entrevista recente ao videocast “Conversa vai, conversa vem”, a atriz desabafou sobre como sofreu por não se enquadrar no “padrão” estético das mulheres naquele período, e como seus papéis foram definidos a partir disso.

Regina avaliou a dualidade da pornochanchada que, ao mesmo tempo em que trazia certa liberdade sexual feminina, também objetificava a mulher. Ela ainda opinou se a representação do gênero evoluiu no audiovisual.

“Está em movimento. Eu sofri com aquilo. ‘Os sete gatinhos’ [de Neville D’Almeida] foi um momento legal, livre. Todo mundo diz: ‘Ah, anos 1970, aquela época em que todo mundo ficava pelado em filme. Regina, você parecia uma índia’. Mas outras vezes, me senti usada. Tem um filme em que me senti usadíssima. Iam fazendo, rodando, as coisas iam acontecendo e ninguém avisava. Era uma época que não se pensava nisso, nem tinha coordenador de intimidade. Foi difícil”, confessou.

A atriz, porém, preferiu não citar qual foi o trabalho. “Melhor não dizer. Mas acho que ainda está confusa a relação de saúde e estética. Primeiro, um padrão muito magro; depois: ‘Você pode ter o peso que quiser’. Não sinto que chegamos num lugar confortável e sereno para as mulheres. As que estão se expondo fora do padrão, por mais que digam ‘me aceito, sou assim mesmo’… Isso ainda gera sofrimento para elas”, observou ela.

Regina Casé no filme “Os sete gatinhos” (Foto: Reprodução/Embrafilme)

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Ela também apontou como os estereótipos passaram a definir as mulheres no humor. “É vitrine do que está acontecendo. A base era o circo: Aí, a mulher barbada ou com nanismo. Era sempre a graça feita em cima do sofrimento de alguém, o que vai dar nesses cuidados, que acham exagerados, do politicamente correto. Eu não acho. Para fazer essa transição, tem que passar por esse lugar”, disse.

“Esse cuidado e essa percepção de: ‘Olha o que todo mundo está fazendo’. Porque, depois, vai no bullying, nos suicídios nas escolas. É a mesma coisa no humor. Vai entrar só uma boazuda no filme, no programa de humor. Ou uma mulher considerada horrorosa, que vai ser zoada o tempo todo. Isso se expande para várias outras coisas, para música e tal. Então, acho que teve que ter um rigor mesmo”, continuou a artista.

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Ao citar o preconceito que existia na época, Casé ressaltou como o nordestino era discriminado. “Todo mundo que não encontra lugar em outro lugar vai parar no humor. Você vê Chico Anysio, Tom Cavalcante, Renato Aragão. Só o fato de ser nordestino parecia uma piada, aquele sotaque… Aquilo é identificado, primeiro, com uma pessoa que é pobre, depois é caricata. Como se não pudesse ser nordestino e fazer o papel que quisesse. A gente começou a quebrar essa barreira com ‘A máquina’ (espetáculo com Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta nos anos 2000). Começou a coisa do sotaque e do cara poder ser galã. Wagner Moura, que deu no que deu. Mas ele também ficaram um tempo ali no humor”, relatou.

Questionada pela jornalista Maria Fortuna se sentiu a cobrança por não corresponder aos padrões estéticos, Regina respondeu: “Eu nunca pude ser a mocinha da novela, mas já pude ser a mãezona da novela quando eu fiquei mais velha. Tina Pepper (personagem de Regina em ‘Cambalacho’) era engraçada, caricata, mas era gostosa. E pegava o galã”.

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“O que era meio parecido comigo. Eu era engraçada, inteligente, a que não era bonitinha. Mas eu era a gostosa e passava o rodo. São não namorei o Michael Jordan, que gostaria de ter namorado. Fiquei numa dúvida interna se eu queria ser o Michael Jordan ou dar para o Michael Jordan. Era louca por ele. Ia ver o jogo, saía gritando e os seguranças me tiravam. Sabe aqueles filmes de Beatles?”, comparou ela, aos risos.

Ao final, a apresentadora contou, do seu ponto de vista, por que nunca podia ser a mocinha. “Porque não estava nesse padrão. Eu tinha cara de nordestina. Quais programas fiz quando entrei? Renato Aragão e Chico Anysio. Depois, ‘TV Pirata’, onde fazia papel de homem o tempo todo. Conforme fui amadurecendo, pude fazer uma mãe bonita. Porque a idade já não exige tanto que tenha aquele padrão de cara, de corpo. Ao mesmo tempo, como muitas atrizes estavam muito botocadas e preenchidas, não poderiam fazer uma cortadora de cana ou a Dona Lurdes. Não ia combinar. E isso foi bom, porque veio muito papel para mim”, declarou.

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