João Doria faz discurso certeiro após acusações do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello: “Aqui lutamos pela vida. E Brasília, luta pelo quê?”— assista

Na tarde desse domingo (17), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decretou vitória da ciência e autorizou, por unanimidade, o uso emergencial de duas vacinas contra a Covid-19: a CoronaVac, da Sinovac e do Instituto Butantan, e a Oxford-AstraZeneca, produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Após o encerramento da reunião, que durou cerca de cinco horas, algumas doses do imunizante foram aplicadas no estado de São Paulo. A enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, moradora de Itaquera, na Zona Leste da capital paulista, foi a primeira pessoa a receber a vacina.

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Mulher negra, Mônica faz parte do grupo de risco para a doença, e atua há oito meses na linha de frente contra Covid-19 no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Ela foi voluntária da terceira fase dos testes clínicos da CoronaVac realizados no país e tinha recebido placebo.

Sem segurar as lágrimas, a enfermeira demonstrou alivio e fez um agradecimento a João Doria, que estava presente durante o ato. “São dez meses de sofrimento, dez meses de mortes, dez meses de vidas ceifadas. O senhor não tem noção do que isso representa pra mim, pra todo o Brasil, para a população. Obrigada”, declarou ela, antes de receber o imunizante.

Embate entre Doria e Pazuello

Em coletiva de imprensa, o ministro da saúde Eduardo Pazuello, acusou o governador de São Paulo, João Doria, de “desprezar a lealdade federativa” e promover uma “jogada de marketing”, após a autorização para uso emergencial da CoronaVac. Em seu discurso, ele foi irônico ao dizer que poderia ter organizado ato similar pelo Ministério da Saúde, mas que “em respeito aos governadores, não fará uma jogada de marketing”.

Para Pazuello, o gesto de Doria é uma “quebra de pactuação” em relação ao Plano Nacional de Imunização, que segundo discurso do ministro, teve o consentimento de todos os governadores. “Quebrar essa pactuação é desprezar a igualdade entre os estados e entre todos os brasileiros, construída ao longo da nossa história. É desprezar a lealdade federativa”, declarou, sem esconder sua irritabilidade. Vale lembrar que João Dória é adversário político do presidente Jair Bolsonaro e deve enfrentá-lo na eleição presidencial de 2022.

Ao final da entrevista, o ministro declarou que as vacinas do Butantan foram compradas com dinheiro do SUS, do governo federal, e não do governo de SP. “Ouço calado, o tempo todo, a politização da vacina. Tudo o que foi comprado pelo Butantan foi com recursos do SUS, sem um centavo de São Paulo. Fomos nós que desenvolvemos o parque fabril do Butantan para a vacina. Trabalhamos com o Butantan no desenvolvimento da vacina desde o início”, acrescentou, observando que “nenhuma dose pode ser retirada do contrato do ministério com o Butantan”. “Tudo o que tem no Butantan é contratado pelo Ministério da Saúde, de forma integral”, encerrou.

Resposta de Doria

Doria, por sua vez, não demorou para rebater a declaração do ministro. “Lamento, ministro, que o senhor, que devia estar grato à Anvisa e a São Paulo, por termos uma vacina, use o tempo para protestar contra isso. É inacreditável uma situação como essa no Brasil… Aqui (em São Paulo), lutamos pela vida. E Brasília, luta pelo quê”, disparou.

“Estou atônito com as declarações do Pazuello. Ele diz que as vacinas foram compradas com dinheiro do SUS, do governo federal, e não com dinheiro do governo de São Paulo. É inacreditável como o ministro da Saúde, sem o menor zelo, sem ser médico, sem planejamento, um desastre completo, ainda mente ao dizer isso. A vacina do Butantan só está em São Paulo e no Brasil porque foi investimento do governo de estado de São Paulo. Não há nenhum centavo, até agora, do governo federal nem para estudo, nem para pesquisa, compra, nada. Chega de mentiras, ministro! Trabalhe pela saúde do seu povo! Seja honesto, seja decente, respeite a verdade”, acrescentou o político.

Doria avisou ainda que o governo de São Paulo enviará amanhã, independente do Ministério da Saúde, 50 mil doses da vacina ao Amazonas, que se encontra em estado de calamidade, por conta do aumento de casos da Covid-19. “Das vacinas que utilizamos no estudo clínico em São Paulo, vamos mandar amanhã pela manhã, 50 mil doses para os médicos do Amazonas, porque eu já não confio no Ministério da Saúde. Essa incapacidade, de produzir mentiras e ataques, quando deveria estar agradecendo que os cientistas conseguiram viabilizar uma vacina… É inacreditável o que estamos vivendo no Brasil”, reforçou.

Doria ainda deu uma resposta enfática sobre o suposto “golpe de marketing” citado por Pazuello. “O governo federal faz golpes de mortes há onze meses contra brasileiros, com negacionismo, cloroquina, falta de agulha, orientação, frases lamentáveis. Isto sim é golpe. Na vida, na saúde, na índole dos brasileiros, principalmente os mais simples. São Paulo continuará a fazer o que lhe cabe, destinando vacinas que caberão ao Ministério da Saúde. A vacina do Butantan é a do Brasil, é a única que temos no país porque São Paulo fez. Não foi o ministério da saúde, não foi o ministro Pazuello, não foi Bolsonaro. Foram cientistas do Butantan. O golpe de morte é o que dá Jair Bolsonaro e a incompetência do seu governo”, enfatizou.

O governador mandou ainda um recado direto a Pazuello e Bolsonaro: “Sei que é difícil ao senhor (Pazuello) e a Jair Bolsonaro ter esse sentimento, mas tenham um pingo de humildade para reconhecer o esforço que São Paulo fez para oferecer a vacina para os brasileiros. A vitória de hoje, o dia V da vacina, da vida, é daqueles que valorizam e trabalham pela vida. Os profissionais da saúde, que trabalham pela vida, são o nosso exemplo, não são aqueles que flertam com a morte. Um triunfo da ciência, da vida contra os negacionistas, contra aqueles que preferem o cheiro da morte ao invés do valor e da alegria da vida”.

As falas do ministro, claro, não passaram despercebidas na web. “Pazuello acabou de dizer que o governo agiu em conjunto com o Butantan o tempo inteiro, e que é fake news que levantou suspeitas sobre a segurança da vacina“, indignou-se um perfil, resgatando um vídeo em que Bolsonaro se mostra contrário à vacina promovida por Doria.

Outros imunizados

Além de Mônica, recebeu também a primeira dose da vacina o enfermeiro Wilson Paes de Pádua, de 57 anos, do hospital Vila Penteado, na Zona Norte. “Estou muito feliz, acho que nós temos que lutar pela vacina, lutar pela ciência, para melhorar a saúde e sair dessa pandemia. Me sinto muito orgulhoso e feliz desse momento”, declarou ele, que perdeu colegas e foi infectado pela Covid-19 em junho, enquanto atuava na linha de frente da pandemia. “Pensei que ia morrer, tinha momentos que rezei para Deus pensando que estava partindo”, desabafou.

A primeira indígena do país também foi imunizada. Presidente do conselho dos indígenas kaimbe do estado de São Paulo, Vanusa Kaimbé, de 50 anos, é técnica de enfermagem e assistente social. “Eu vim aqui hoje representar a população indígena e falar a importância da vacina. A vacina salva vidas. Fui a primeira indígena a ser vacinada e recomendo para todos os meus parentes”, ressaltou.