Entrevista: Pedro Carvalho fala sobre relação com Glamour Garcia nos bastidores de ‘A Dona do Pedaço’ e revela o que faria se estivesse no lugar de Abel: ‘Interessante pensar nisso’

Tem ship mais fofo que Abel e Britney de “A Dona do Pedaço”? Faz dois meses que a novela está no ar e esses personagens já cativaram nossos corações. Em entrevista ao hugogloss.com, Pedro Carvalho deu mais detalhes de como foi a preparação para o personagem, comentou sua relação com Glamour Garcia nos bastidores da produção e revelou qual seria sua reação se estivesse na mesma situação do Abel.

Em ‘A Dona do Pedaço’, o boleiro português é apaixonado por Britney, mas não sabe que ela é transsexual. Já saíram alguns spoilers de que Abel não reagirá tão bem ao descobrir a verdade, entretanto, seu intérprete não teria problemas com o relacionamento. “Pra mim é interessante porque eu venho de um ambiente familiar com zero preconceito. Eu sempre fui educado pra entender que todo mundo é igual, todo mundo tem o mesmo direito. Então eu nunca julgaria qualquer pessoa por isso. Eu nem consigo entender o preconceito. Pra mim, o preconceito é um egoísmo. Deixa a pessoa ser feliz”, declarou.

Apesar de não poder falar muito sobre o futuro de Abel, Pedro adiantou o que espera que aconteça com o casal após a revelação. “Se ele tiver uma atitude mais de mágoa, eu acho, e espero, que isso caminhe para uma evolução de personagem e que ele aprenda e perceba que o amor é o que importa e perca esse preconceito”, comentou, acrescentando que isso ainda deve levar um tempo. “Acho que o Walcyr vai fazer de tudo pra juntar eles de novo, mas muita coisa tem que ser contada antes. Tem que ser contado o universo realmente que acontece nesse mundo dos transexuais, porque são vítimas de muita violência, muito preconceito, muito bullying. Pra mim são pessoas guerreiras, que eu admiro muito”, ressaltou Carvalho.

O português ainda refletiu sobre a importância de tratar do assunto na televisão. “É muito inteligente da parte dele (Walcyr Carrasco, o autor), falar sobre um assunto que tem que ser falado nesse momento político, social e econômico que o Brasil tá passando – de transfobia, de homofobia, de preconceito, de machismo – de uma forma tão leve e com comicidade. Isso não significa que o assunto não seja falado com seriedade. Mas, com essa forma leve, acho que as pessoas captam melhor a mensagem”, concluiu.

Abel e Britney em ‘A Dona do Pedaço’ (Foto: Reprodução/Globo)

Mesmo com um currículo de peso em Portugal – incluindo 13 novelas, vários filmes, séries e dublagens – o ator passa cada vez mais tempo no Brasil e, por isso, está fazendo aulas de fono para incorporar o nosso sotaque (e a gente pode garantir que está dando certo, viu?). “Eu adoro fazer o português de Portugal, que é minha língua, mas, em um projeto, fica muito específico. Então, pra ter um leque de oportunidades maior, eu tô aprendendo também o português do Brasil”, explicou.

Entretanto, ele ainda não tem nenhum trabalho programado após o fim das gravações de ‘A Dona do Pedaço’. “Eu tô gravando quase todos os dias de segunda a sábado, aí fico tão focado nisso que prefiro viver o presente e me dedicar completamente a esse personagem”, afirmou Pedro.

Confira a entrevista completa:

Hugo Gloss: Como foi a preparação para viver esse personagem? Qual foi sua inspiração?  

Pedro Carvalho: Eu me inspirei muito em um ex-Big Brother de Portugal, que é boleiro também e faz academia, e ele tem essa pegada de ser muito ingênuo, mas também muito carismático. E também nas diretivas que o próprio Walcyr [Carrasco, autor] ia falando na história. Que o personagem é do interior de Portugal, que é um cara muito quadrado nas ideias dele, muito ingênuo. Ele é distraído nas receitas. Então esse universo todo foi se criando durante a preparação. Esse cara que é meio playboy, mas ingênuo, com um bom coração. Tem um amor muito puro pela Britney, mas, ao mesmo tempo, é bruto, avoado, tem aquelas expressões portuguesas muito características que o Walcyr e a Amora [Mautner, diretora artística] pediram pra eu colocar no personagem e isso foi criando esse universo do Abel.

HG: O Abel tem um lado cômico que é novo pra você na TV brasileira. Foi tranquilo fazer? Como você acha que isso influencia na hora de tratar um assunto sério como a transsexualidade?

PC: Em novelas eu já fiz mocinho e vilão, mas comédia eu tinha feito mais em teatro e cinema. E foi muito interessante o Walcyr e a Amora terem me dado esse desafio porque, no começo, eu nem sabia que o Abel teria essa pegada cômica. Isso foi uma construção que eu fiz na época da preparação. Eu e a Glamour criamos uma química muito grande fora de cena e aí foi surgindo essa pegada. Todo mundo já falava ‘vocês vão ser o casal da novela, com certeza’. É muito inteligente da parte dele [Walcyr], falar sobre um assunto que tem que ser falado nesse momento político, social e econômico que o Brasil tá passando, de transfobia, de homofobia, de preconceito, de machismo, de uma forma tão leve e com comicidade. Isso não significa que o assunto não seja falado com seriedade. Mas, com essa forma leve, acho que as pessoas captam melhor a mensagem. Porque o preconceito de fato está na cabeça das pessoas e eu acho que o Abel representa um pouquinho esse cara que não tem muita cultura, mas que é possível de adquirir esse conhecimento e entender, afinal, que o amor é o que importa. Isso é um percurso de personagem muito interessante que mostra que a diferença um do outro é uma qualidade, a gente se apaixona por pessoas.

Pedro Carvalho é o Abel em ‘A Dona do Pedaço’ (Foto: Chico Cerchiaro/Reprodução/TV Globo)

HG: Como é sua relação com a Glamour fora de cena? Vocês conversaram sobre as vivências pessoais dela pra entender o universo do personagem como um todo?

PC: Trabalhar com a Glamour é muito fácil. A gente se liga muito e troca bastante. Às vezes, a gente tá só ensaiando a cena e a equipe toda já tá rindo porque ela vai atrás de mim, eu vou atrás dela, a gente brinca com uma série de coisas sem perder essa verdade dos personagens, que abordam coisas muito sérias. A Glamour compartilha comigo várias histórias. Eu também entrei muito nesse universo das pessoas trans, de perceber o que acontecia. Preconceito e transfobia, que já vimos um pouco, como na questão dos banheiros. Porque a nossa missão, sem presunção, acho que é educar também a mentalidade das pessoas. E o fato é que o Abel e a Britney são um casal muito querido do público. A gente sente muito isso e é bem legal.

HG: Sim, o público já está torcendo bastante pelo casal… Alguém chegou a te mandar mensagem falando que viveu ou está vivendo algo parecido com a história dos personagens?

PC: Aqui no Brasil é minha terceira novela, mas eu nunca tinha tido uma repercussão tão grande de um personagem como essa do Abel. É impressionante como as pessoas na rua me abordam muito e é muito legal. Nas redes sociais, as pessoas torcem muito pelo casal. E é interessante ver isso porque é um casal muito improvável que só mostra que o amor é o que importa. É como se fosse um tipo de esperança, porque, se é um casal tão querido do público, as pessoas lá em casa percebem que você realmente se apaixona por pessoas, independente da raça, da cor, da etnia, do sexo. É um passo pra um futuro em que o preconceito não exista, que as próximas gerações olhem pro lado e vejam que somos todos iguais e que a diferença do outro é uma qualidade. Eu fico feliz por ser um dos contadores dessa história.

HG: Já saíram alguns spoilers de que o Abel ficará um pouco confuso ao descobrir que a Britney é trans. Você acha que no futuro ele vai entender e aceitar?

PC: Ainda não posso falar do futuro, mas eu e a Glamour estamos muito ansiosos pra saber o que acontece, realmente. Mas a gente não pode esquecer que a novela conta uma história que acontece na realidade. No Brasil é muito triste a quantidade de pessoas trans que morrem todos os dias, a gente nem tem conhecimento de tudo. Só porque o outro do lado não aceita. O Abel é um cara bom, só que ele não tem muita cultura, há muitas coisas que ele não entende. Ele não tem muito os olhos abertos. Se ele tiver uma atitude mais de mágoa, eu acho, e espero, que isso caminhe para uma evolução de personagem para que ele aprenda e perceba que o amor é o que importa e perca esse preconceito. Acho que isso ensina um pouco pras pessoas de casa que o preconceito muitas vezes é o medo do desconhecido, é o medo da diferença. E eu acho que a moral pode ser muito bonita. A gente nunca sabe as voltas que a vida dá, a gente não escolhe por quem a gente se apaixona. Acho que o Walcyr vai fazer de tudo pra juntar eles de novo, mas muita coisa tem que ser contada antes. Tem que ser contado o universo realmente que acontece nesse mundo dos transexuais, porque são vítimas de muita violência, muito preconceito, muito bullying. Pra mim são pessoas guerreiras, que eu admiro muito.

HG: Se você estivesse em uma situação parecida com a dos personagens, qual você imagina que seria sua reação?

PC: Pra mim é interessante pensar nisso porque eu venho de um ambiente familiar com zero preconceito. Eu sempre fui educado pra entender que todo mundo é igual, todo mundo tem o mesmo direito. Então eu nunca julgaria qualquer pessoa por isso. Eu nem consigo entender o preconceito. Pra mim, o preconceito é um egoísmo. Deixa a pessoa ser feliz.

HG: Você já fez uma porção de novelas em Portugal antes de vir pro Brasil. Você sentiu muita diferença em trabalhar nas novelas daqui? Teve alguma dificuldade na adaptação?

PC: Aqui no Brasil a gente trabalha pra 230 milhões de habitantes, né. Em Portugal, nós somos 11 milhões de habitantes. Ou seja, o público é completamente diferente. Por mais que as nossas novelas sejam vendidas para toda a Europa, Angola e as ilhas, só agora passou a ser algo cultural. No Brasil, isso já faz parte da cultura há muito tempo. Por isso, aqui tem estruturas maiores, tipo cidades cenográficas. A gente não usa muito cidades cenográficas lá, é mais locação real e estúdios. Aqui o investimento é maior porque a gente trabalha pra muito mais pessoas. Agora, em nível de trabalho, é muito parecido. A única coisa é que em Portugal a gente grava mais cenas que aqui. Foi engraçado porque a primeira novela que eu fui gravar aqui, ‘A Escrava’, eu fiz um protagonista. Aí a diretora da novela me chamou e falou: ‘Olha, você vai gravar muito, cerca de 20 cenas por dia’. Aí eles viram minha cara e perguntaram: ‘Você não ficou assustado?’. Então, eu falei: ‘Não, quando eu faço protagonista em Portugal eu gravo 40 cenas por dia, então não tem problema’. (risos).

HG: Em uma entrevista recente, você disse que quer continuar focado na carreira aqui no Brasil e que até está fazendo fono pra conseguir mais personagens. Você chegou a perder algum personagem no Brasil por conta do seu sotaque?

PC: Não, não. Eu adoro fazer o português de Portugal, que é minha língua, mas, em um projeto, é muito específico. Então, pra eu ter um leque de oportunidade maior, eu tô aprendendo também o português do Brasil. Eu já me sinto preparado pra fazer essa transição. Mas, até hoje, eu sempre fui proposto pra fazer personagens portugueses. Se surgir outro personagem português, perfeito, eu vou ficar mega feliz, mas se surgir um brasileiro eu vou ficar feliz também.

“Pra mim, o preconceito é um egoísmo. Deixa a pessoa ser feliz.” (Foto: Chico Cerchiaro)

HG: Se te convidassem pra algo em Portugal, você voltaria?

PC: Claro! Até porque eu tenho um mercado muito firme lá, então sempre que eu termino um trabalho aqui eu volto pra lá. Depois de ‘A Escrava’, eu fiz uma série e uma peça. Aí fiz um filme, que emendei em ‘O Outro Lado do Paraíso’. Depois voltei pra Portugal pra gravar uma série de época e agora tô aqui de novo. Então tô sempre fazendo essa ponte aérea.

HG: Então você já tem algum próximo trabalho planejado?

PC: Olha, por agora, eu até falo pros meus empresários daqui e de lá pra nem falarmos sobre nada, porque eu tô bem feliz com esse momento do personagem. E eu tô gravando quase todos os dias de segunda a sábado, aí fico tão focado nisso que eu prefiro viver o presente e me dedicar completamente a esse personagem. Aí quando eu estiver perto de terminar a novela, começo a pensar no futuro.

HG: As nossas novelas fazem muito sucesso em Portugal e você já disse em outras entrevistas que assistia a algumas quando estava lá. Quais você via? Tinham atores daqui que você sonhava em contracenar quando ainda morava em Portugal?

PC: Claro! Eu cresci assistindo a novelas brasileiras… Lembro perfeitamente de ‘Pedra sobre Pedra’, ‘Tieta’, ‘Vamp’, a própria ‘Malhação’, ‘Puro Amor’, ‘O Rei do Gado’, que foi um sucesso… isso fez parte da minha estrutura familiar, da nossa noite familiar. Era muito gostoso. Claro que havia cenas que meus pais não deixavam a gente ver e mandavam pra cama, aí a gente ficava espreitando por trás da porta (risos). Mas Zezé Motta, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Laura Cardoso… são atores aos quais assistia muito nas novelas e agora tô tendo a oportunidade de trabalhar, contracenar, conviver nos bastidores também. É muito legal trocar experiência com eles. Tem o Ary Fontoura, que é uma pessoa muito querida, um ator tão talentoso. Poderia enumerar mais pessoas, mas são muitos. Todos esses atores fazem parte do meu universo de referências da interpretação. Muitos deles, inclusive, me cativaram a estudar a arte de representar.

HG: Por fim, mais uma curiosidade nossa… você já cozinhava antes de interpretar o Abel? Aprendeu alguma coisa com o personagem?

PC: Olha, eu sempre gostei de cozinhar. Na vida real, eu faço muito esporte, tenho uma alimentação saudável e tal, mas eu tenho um lado formiga, eu adoro doce. Então, quando eu tive esse desafio, fiquei pensando em como ia resistir a tanto bolo durante a novela. Porque é difícil, viu? Às vezes é impossível. (risos). Cozinhar eu sempre gostei, fazer o jantar e reunir os amigos, eu adoro. Mas de doce eu não sabia nada. Com esse personagem, a gente teve muitos workshops de confeitaria, aí eu aprendi a fazer muita coisa.