Após mortes em Paraisópolis, Anitta reclama de preconceito contra o funk e critica o governo por “descaso”: “Poderia ter sido eu, minha mãe e meu irmão”

Neste domingo (01), o Brasil ficou abalado com as mortes em um baile funk em Paraisópolis, a maior favela da cidade de São Paulo. Após uma ação policial na festa, nove jovens foram mortos, com suspeita de terem sido pisoteados, depois de encurralados pela Polícia Militar nas vielas do local. Com a repercussão do caso, Anitta recorreu às redes sociais nesta terça (03) para lamentar a tragédia e questionar autoridades sobre o “descaso” com o contexto maior da situação.

Para Anitta, foi triste ver algo assim acontecendo em um ambiente no qual ela esteve presente desde cedo, e onde iniciou sua carreira. “A única coisa que eu consigo pensar é que, se fosse alguns anos atrás, poderia ter sido eu, minha mãe e meu irmão uma dessas pessoas [mortas]. Uma das coisas que a gente mais fazia, quando eu estava começando a cantar, era cantar em baile de favela, festa de favela. Poderia ter sido um de nós. Sem palavras”, declarou.

Segundo a revista Veja, o comando da PM afirmou que, na trágica ocasião, os soldados reagiram ao ataque de bandidos a bordo de uma moto. Anitta também questionou tal atitude. Segundo ela, esse tipo de coisa jamais seria vista em outros grandes eventos de música, com outros perfis socioeconômicos. “O fato de ser uma festa com presença de drogas ilícitas e com presença de criminosos não justifica o fato de você sair entrando e atirando”, opinou.

Anitta fez um showzaço no Rock in Rio, levando o funk ao Palco Mundo do festival. (Foto: Getty)

“Mas e se [bandido] tivesse entrado num super festival respeitado? Ia sair entrando atirando? Tem vários festivais respeitados que têm droga, têm um monte de gente dentro roubando. E aí, saem entrando atirando? Não sai, né? Porque é diferente. Pras pessoas, [quem está no baile funk] é ‘vagabundo’, é ‘música de baixo conteúdo’, é gente que não tem o que fazer… Complicado o preconceito”, adicionou a cantora, deixando clara a sua queixa.

Em sua fala, a dona do bombado funk “Vai Malandra” defendeu que há questões maiores para serem prioridade neste contexto. “Se a letra é o que é, se as pessoas não tem condições de curtir em outros lugares, de outras maneiras, é porque eles não tem acesso a outras coisas, gente! Acabei de falar que anos atrás era eu minha mãe e meu irmão, e aí?”, disparou Anitta.

“Se o funk incomoda tanto, se o baile funk incomoda tanto, vai na raiz do problema, ué. Que não é matar as pessoas, sair limpando e jogando pra debaixo do tapete. É dar educação de verdade, qualidade de vida para as pessoas”, continuou a estrela, em meio aos seus protestos sobre frequentes casos de corrupção no governo e a falta de investimentos na educação pública.

Anitta sempre se posicionou contra a criminalização do funk e todo o preconceito com o gênero, no qual se popularizou pelo país. (Foto: Vivian Fernandez/Getty Images)

Antes que fosse alvo de interpretações distorcidas, Anitta deixou claro seu ponto de vista: “Não tô defendendo criminoso não, tá, gente? Não tô defendendo crime, não tô defendendo droga ilícita. Muito pelo contrário”. Novamente, a artista reforçou sua opinião sobre a ação do Estado: “Só tô querendo dizer que o governo fala tanto que quer uma solução, mas a solução tava aí. Paga direito os professores, gente. Faz das escolas públicas uma escola de qualidade… Dá educação, dá acesso pras pessoas… em uma década tá diferente”.

Por fim, Anitta seguiu defendendo a cultura dos bailes, apontando que a grande maioria do presentes — suscetíveis a ações como a de Paraisópolis — é composta por pessoas inocentes, querendo apenas se divertir. “Deve ter político honesto, assim como tem muita, muita, muita – na verdade, a maioria – de pessoas honestas no baile da favela. Pessoas buscando entretenimento, como eu, minha mãe, meu irmão, que já estivemos lá por anos das nossas vidas. Cantando e fazendo nosso dinheiro do mês, garantindo nosso sustento, sem prejudicar ninguém”, concluiu. Confira o desabafo completo aqui:

A ação policial no ‘Baile da Dz7’ culminou na morte precoce de nove jovens de 14 a 23 anos. São eles: Gustavo Cruz Xavier, 14; Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16; Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16; Denys Henrique Quirino da Silva, 16; Luara Victoria Oliveira, 18; Gabriel Rogério de Moraes, 20; Eduardo da Silva, 21; Bruno Gabriel dos Santos, 22; e Mateus dos Santos Costa, 23. Além deles, uma décima pessoa segue internada.

Após a tragédia, o governador do estado de São Paulo, João Doria, afirmou que a ‘política de segurança pública não vai mudar’. De acordo com o G1, o político admitiu que haverá uma apuração do caso, mas defendeu o lado das forças policiais, antes mesmo de iniciada a investigação. “A letalidade não foi provocada pela Polícia Militar, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk”, disse Doria.

Ainda ontem (02), os seis PMs envolvidos na ação foram afastados das ruas. O comandante-geral da PM Marcelo Vieira Salles declarou que “eles estão preservados”. Um inquérito sobre os acontecimentos fatais do final de semana já está a cargo da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, que investigará os fatos e vai apurar a conduta dos oficiais.