Dançarina e modelo, Raielli Leon acusa MC Livinho de racismo e relembra episódio que viveu em gravação de clipe em 2017; Funkeiro rebate

A dançarina e modelo Raielli Leon, mais conhecida como Ray, usou as redes sociais, nessa terça-feira (02), para fazer um longo desabafo sobre racismo que teria sofrido do funkeiro MC Livinho, durante as gravações de um clipe, em 2017. A influenciadora preta explicou que decidiu se abrir após ver um post do cantor em apoio ao movimento “Vidas Negras Importam”, e garantiu que tinha provas de toda a história, já que o caso está na Justiça.

“Tá registrado em boletim de ocorrência, eu não tenho por que mentir sobre uma coisa tão séria. Não é brincadeira mesmo. Eu cansei. Eu tô com um nó na garganta há muito tempo. É algo que vem me machucando muito, já me atrapalhou muito em questões de trabalho, no psicológico, na autoestima”, iniciou ela, através do Instagram Stories. “É muito triste você se amar, confiar no seu potencial, estar bem consigo mesma e aí vir alguém e te colocar lá em baixo por conta da sua cor, dos seus traços, do seu tipo de cabelo, é absurdo. E essas mesmas pessoas querendo levantar essa bandeira de vidas negras importam”, lamentou, expondo a contradição.

Ray, então, relatou sua experiência. “Em novembro de 2017, fui convidada pra gravar um clipe do Rodriguinho, Gaab e MC Livinho. Fiquei muito empolgada, porque tinha começado a gravar clipes. Fui gravar, só que no dia o Livinho não pôde comparecer. Marcamos pro próximo final de semana pra terminar de gravar esse clipe que a gente já havia começado. No meio da semana, o produtor me chamou pra gravar um outro clipe, tinha 9 modelos negras e 10 modelos brancas. Fiquei super empolgada, levei horas pra deixar meu cabelo seco, com volume, com cachinhos. Quando eu cheguei, Livinho estava lá. Cumprimentei ele e acho que ele soube que eu estaria com ele no outro clipe, e não foi com minha cara. Ele passou o clipe inteiro me olhando torto. Então eu fiquei no meu canto, totalmente”, explicou a modelo, detalhando os comentários e atitudes racistas e constrangedores do funkeiro, que envolveram até assédio.

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“Fomos gravar uma das últimas cenas, me colocaram do lado dele, e eu fiquei dançando na minha. Não sei o que passou na cabeça dele, porque não tem como saber o que passa na cabeça de uma pessoa racista, idiota, escrota. Ele começou a fazer dancinhas obscenas, virado pro meu lado, pegando no saco, como se estivesse sarrando. Já fiquei incomodada ali naquele momento. Porque foi uma pessoa que nem falou comigo o clipe inteiro, me olhou torto, e do nada fazendo brincadeiras desse tipo e eu fiquei sem entender”, descreveu.

“Pra confirmar meu incômodo, ele tirou o celular do bolso dele, colocou no meu cabelo, puxou e falou: ‘você roubou meu celular, cabelo!’. Eu já incomodada, tirei a mão dele. Quebrou o meu encanto pelo artista. Todo mundo que estava por perto riu. A maioria começou a rir. Satisfeito, porque ele queria chamar a atenção, deu certo pra ele. Pra mim que não tava dando, porque eu não estava gostando da brincadeira. Ele repetiu mais duas vezes: pôs a mão no meu cabelo, falou que estava espetando, catou um anel, colocou no meu cabelo, falou que eu tinha roubado o anel dele. E eu inconformada, mandando ele parar”, completou a dançarina.

Em seguida, ela relembrou que ninguém fez nada para lhe defender. “As pessoas estavam filmando, porque era uma cena para o clipe. Não era um momento aleatório. Ao invés de mandarem ele parar, porque aquilo era racismo e eu não estava gostando, falavam: ‘ai, Livinho, príncipe, pula na piscina’. Enquanto ele se arrumava pra pular na piscina, ele não estava satisfeito, virou pra mim e perguntou: ‘vamos pular na piscina? Não quer ver se [o cabelo] molha?! Aí eu olhei pra cara dele e falei: ‘Você não cansa de ser idiota? Você não tá vendo que tá sendo ridículo?’. Aí virei de costas pra ele parar de falar comigo. Naquele momento, ele pegou no meu braço pra me puxar e me jogar na piscina. Bati, tirei a mão dele e não pulei. Lembrando que eu não tinha intimidade nenhuma com ele, não conhecia ele antes, não dei nenhuma liberdade e muito menos isso, que não é uma brincadeira”, desabafou.

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O episódio a deixou muito abalada e, na própria locação do clipe, ela já demonstrou sua tristeza. “Fiquei mal, fui pra um canto, chorei. Algumas meninas perceberam o que aconteceu. Inclusive, tenho testemunhas. Passaram dois dias, Douglas (o produtor) entrou em contato comigo, se eu podia continuar a gravar o clipe com Rodriguinho, Gaab e Livinho. Falei que eu iria, mas não ia aceitar brincadeira idiota, porque não sou palhaça de ninguém”, recordou.

Foi aí que a situação ficou pior, porque ela teria sido ameaçada pelo produtor da agência. “Eu só esperava que ele se desculpasse, nem que fosse por telefone e a vida ia seguir normal. Só que não. Sabe o que ele (o produtor) fez?! Me xingou de todos os nomes possíveis, falou que era mentira minha, que eu estava inventando, que ia acabar com a minha carreira, que eu deveria ter medo do que eu estava falando e com quem eu estava brincando”, chocou-se a menina. “Fiquei mal, desesperada, chorei. Ele falou que ele tava lá, atrás da câmera, ele viu com os olhos dele. Era só falar pra mim que não ia acontecer de novo. Eu já ia me sentir melhor do que passar por todo esse estresse que veio depois. Porque isso foi só a pontinha do iceberg que não acaba nunca, parece que eu nunca mais vou ter paz na minha vida”, lamentou.

Raielli afirmou que entrou com processo, mas a agência que a contratou e o artista teriam tornado as coisas mais difíceis. “Eu tive muitos problemas por conta disso. A minha mãe tinha um processo nas mãos dessa advogada que começou a cuidar do caso. Ela abandonou o processo da minha mãe, ‘perdeu’ todas as minhas provas que ela já havia colocado em um CD”, explicou.

Por fim, a modelo afirmou que desde que ela havia começado a se manifestar sobre o caso, Livinho já havia a chamado para conversar. “Eu acho um absurdo depois de tudo isso, hoje alguém levantar a bandeirinha ‘vidas negras importam’. Aí só porque hoje eu tô contando o que aconteceu, só porque hoje eu tive coragem de falar, aí vem me procurar e me pedir desculpas, perguntando o que pode fazer por mim. ‘Como nós podemos resolver isso?’ Podemos resolver isso na justiça”, concluiu.

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Ray ainda fez posts no feed sobre o ocorrido. “MC Livinho, GR6 (agência), eu acho um absurdo vocês se apropriarem dessa causa como se fosse apenas um tag qualquer, como se vocês tivessem um pingo de empatia, depois de tudo que vocês vêm me causando. Não é uma postagem ou tranças que vai fazer de vocês menos racistas, não é sobre colocar pretas no clipe pra embelezar, é sobre respeitar cada uma de nós, é sobre ter empatia pelas pessoas pretas e pela história do nosso povo”, afirmou.

“Depois de tudo o que aconteceu e vem acontecendo eu quero deixar bem claro que não tenho mais medo das ameaças e não ligo mais para o stress que vocês vão continuar me causando. Racistas não passarão e eu gostaria muito que vocês fossem no mínimo presos pelo tormento, e a humilhação que vocês me causaram, isso não vai ficar assim!! EU NÃO TENHO MEDO!”, finalizou.

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mclivinho rodrigogr6oficial Eu acho um absurdo vocês se apropriarem dessa causa como se fosse apenas um tag qualquer, como se vocês tivessem um pingo de empatia, depois de tudo que vocês vem me causando, não é uma postagem ou tranças que vai fazer de vocês menos racistas, não é sobre colocar pretas no clipe pra embelezar, é sobre respeitar cada uma de nós, é sobre ter empatia pelas pessoas pretas e pela história do nosso povo! Depois de tudo oque aconteceu e vem acontecendo eu quero deixar bem claro que não tenho mais medo das ameaças e não ligo mais para o stress que vocês vão continuar me causando, #racistasnãopassarão e eu gostaria muito que vocês fossem no mínimo preso pelo tormento, e a humilhação que vocês me causaram, isso não vai ficar assim!! EU NÃO TENHO MEDO! #blacklivesmatter #mclivinhoracista #vidasnegrasimportam #racistasnãopassarão

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Não só isso, Leon ainda publicou o vídeo do episódio relatado, em que estava ao lado do Livinho na gravação do clipe. Não é possível ouvir com clareza as declarações dele, por causa da música, mas dá pra notar o momento exato em que ele tenta a empurrar na piscina. “Já me desgastei demais com isso tudo, e parece que não acaba nunca!”, lamentou.

“Já fui cortada de clipe, ameaçada, barrada na balada, fui cancelada nas presenças vip (que é trabalho), já me xingaram muito nas redes sociais, já deixei de gravar clipe com artistas que eu sou fã, já foram em outra produtora me prejudicar durante um clipe que eu estava gravando, já atrasaram meu processo, já me seguiram com a intenção de me intimidar na balada e muitas outras coisas vêm ocorrendo desde esse dia!”, acusou ao publicar o vídeo.

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Pouco tempo depois, o MC fez uma live em seu Instagram para abordar o assunto. De acordo com o funkeiro, tudo não teria passado de uma “brincadeira de mal gosto” e ele teria pedido desculpas para ela no mesmo dia. “A mina me chamou de racista porque eu fiz uma brincadeira de mal gosto na visão dela, só que tava interagindo no clipe, tava brincando com ela pra tirar justamente o sorriso dela, porque ela tava muito séria. Fiz uma brincadeira com ela, que ela interpretou de má forma”, tentou explicar.

“Eu pensava dessa forma antigamente, mas como passou o tempo eu já penso de outra forma. Se vocês vão puxar minha caminhada, eu tô sem B.O. Hoje eu já tô com outra cabeça, outra visão, faz três anos”, ressaltou. “Ela levou pra outro lado, o que eu fiz? Pedi desculpas pra ela. Me retratei na hora, é postura de homem isso aí. Na hora que eu pedi desculpas pra ela, ela ficou irreversível, mano. Não aceitava, tava na maldade, eu já tava percebendo isso”, relatou ele, acusando Raielli de volta.

Ele seguiu no assunto, afirmando que também sofria preconceito, declarando que Ray queria ‘fama’ e falando que a situação já teria sido resolvida – contradizendo a dançarina, que ressaltou que o caso ainda estava na Justiça. “Vacilão é o car*lho. Eu sou homem, eu arco com as minhas responsabilidades, entendeu? E pros meus fãs, tá aí eu me retratando e pedindo compreensão pra vocês entenderem o que aconteceu. Quer dar fama pra mina, dá fama pra mina, mas por que a mina não tá levantando a bandeira do movimento dela? Ela tá jogando uma situação que já foi resolvida? Só me responde isso. Eu não vou tirar meu bagulho aqui porque eu sou contra o racismo e contra o preconceito, tanto que eu já sofri e sofro”, declarou.

“Um bagulho que já foi resolvido, só que a mina levou adiante. Então se vocês querem abraçar essa ideia dela, então vai. Demorou. Só que aí depois quando sair a cartinha do tribunal, nós vamos ver quem tá certo e quem tá errado”, finalizou.