Funcionário da Voepass confessa “remorso desgraçado” por omitir falha de avião que caiu; ouça áudio

Áudio revelou funcionário relatando a omissão do problema de desgelo da aeronave

O “Fantástico” deste domingo (3) divulgou um áudio em que dois funcionários da manutenção da Voepass lamentaram a falha não reportada na madrugada do acidente do voo 2283. O turboélice ATR 72-500 caiu na cidade de Vinhedo, no interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024, e ninguém sobreviveu.

De acordo com o jornalístico, a investigação apontou que uma falha crítica nos sistemas de degelo da aeronave foi omitida do diário de bordo horas antes da decolagem. A gravação foi obtida um mês depois do acidente e os funcionários não sabiam que estavam sendo gravados.

Um deles disse que estava com “remorso desgraçado”, mesmo com a imposição dos superiores, por omitir a falha do avião. “Eu estou com um remorso desgraçado. Eu não tô conseguindo dormir direito desde isso aí… Errei, errei por não ter mandado por escrito. Eu não tinha mais o que fazer. Tipo isso, foge do meu cargo, foge da minha autoridade, de tudo“, declarou.

Um colega, então, sugere que ele reúna provas. “Por isso que a gente sempre usa aquela tática: printa, manda para teu celular, guarda isso daí. É uma sujeira que eu fico cada dia que passa mais enojado com isso aqui“, comentou.

Ouça:

Um mecânico da companhia, que preferiu não se identificar, confirmou que o sistema de degelo não estava funcionando corretamente horas antes da queda. No último voo da aeronave antes do acidente fatal, o comandante pousou em Ribeirão Preto, e pediu que ela fosse mandada para a manutenção.

Contudo, o comandante não registrou oficialmente a queixa e o avião acabou liberado para decolar novamente. Ainda conforme o mecânico, a equipe “voava sob pressão” e “não podia ficar colocando sempre pane na aeronave“.

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Luiz Cláudio de Almeida, ex-comandante do turboélice ATR que atuou como copiloto na Voepass, relatou que o dia da queda foi “especialmente crítico”, com um boletim alertando para muito gelo em todos os níveis. E ao contrário das recomendações dos manuais, a aeronave não baixou para derreter o gelo acumulado. O sistema de degelo foi acionado três vezes durante o voo.

Ao fazer uma curva para aproximação de pouso, o avião perdeu a sustentação devido à estabilidade já comprometida e caiu antes de chegar a São Paulo. Conhecido na companhia como “Papa Bravo”, devido a seu prefixo PS-VPB, o avião também apresentava problemas crônicos. “Esse avião não estava adequado para voar nas condições de gelo“, afirmou Almeida.

Queda da Voepass vitimou 62 pessoas, em Vinhedo (SP). (Foto: Reprodução/GloboNews)

Ele disse ainda que nunca viu o sistema “boot”, que infla para expulsar o gelo das asas, funcionar corretamente no “Papa Bravo”, o que teria sido crucial para evitar o acidente fatal. Não há previsão para a divulgação do relatório final do Cenipa. Uma reportagem do g1 também revelou a última comunicação entre a tripulação do voo e o controle de tráfego aéreo.

As falas são tranquilas e seguem o padrão esperado para uma aproximação para o pouso. Além disso, não mostraram qualquer tipo de pane ou emergência. O acidente matou 62 pessoas.

Assista à reportagem completa:

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