Dony De Nuccio também fez negócio milionário com plano de saúde; site revela detalhes delicados da atuação

É, gente, o buraco era ainda mais embaixo… Dony De Nuccio demitiu-se da TV Globo nesta quinta-feira (01), após ter quebrado código de ética da emissora. O trabalho paralelo do ex-âncora do “Jornal Hoje” veio à tona após uma reportagem do Notícias da TV. E nesta sexta-feira (02), o site divulgou novas informações de que ele tinha outro negócio milionário, propondo ideias de pautas a uma empresa, para que tivessem mais chances de ser exibidas!

Segundo documentos obtidos pelo portal, a Prime Talk, empresa de Dony e do sócio Samy Dana, tinha um contrato com a Amil Assistência Médica, cobrando 1,2 milhão de reais pelo serviço de “consultoria de comunicação”. Nessa empreitada, De Nuccio elaborava propostas de reportagens para a Amil, para que elas pudessem ser veiculadas nas emissoras, como em seu próprio emprego, a TV Globo.

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Ou seja, vendia a ideia dessas notícias (como “Dieta mediterrânea reduz em 22% risco de derrames em mulheres”) para que elas fossem exibidas. Com as noções da estrutura da emissora, Dony propunha as ideias de notícias para a Amil, e chegava a sugerir até mesmo em quais programas elas teriam mais chance de ir ao ar. Para isso, ele teria até mesmo indicado nomes e contatos de profissionais específicos da Globo, buscando atingir resultados mais certeiros.

Dony De Nuccio na bancada do “Jornal Nacional” (Foto: Reprodução/TV Globo)

Nessas pautas feitas para a Amil, a Prime Talk detalhava os assuntos muito bem, elaborando completamente as matérias a serem sugeridas. Além de bem detalhadas e com muitas informações, elas vinham também com sugestões de entrevistados, profissionais que representariam a empresa contratante nas respectivas matérias. Um claro serviço de assessoria de imprensa.

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Procuradas pela reportagem do Notícias da TV, nem a Amil nem a Globo se manifestaram especificamente sobre esse caso do Prime Talk. Segundo os códigos de ética da emissora e seus princípios editoriais, seus jornalistas contratados não tem autorização de fazer assessoria de imprensa, nem publicidade.

Demissão

Nesta quinta-feira (1º), quando completaria exatos dois anos à frente do ‘Jornal Hoje’, Dony De Nuccio pediu demissão da TV Globo. Após vir à tona, através de uma reportagem do “Notícias da TV”, que o jornalista teria faturado mais de R$ 7 milhões em contrato com um banco sem o conhecimento do canal, De Nuccio enviou um e-mail a Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da emissora carioca, reconhecendo o erro e informando o seu desligamento.

Em sua carta, o âncora do “Jornal Hoje” afirmou que na ocasião “não tinha conhecimento de que os tipos de serviços prestados pela empresa à qual estava ligado contrariavam normas da Globo”, mas que agora percebia sua falha. “Entendo com os olhos de hoje que o escopo dos serviços prestados ultrapassa os limites do que a Globo espera de seus jornalistas. E lamento que, mesmo sem dolo, não tenha percebido isso antes. Não quero mais constranger você, a Globo ou a minha família”, desabafou.

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No email, ele ainda relembrou os anos na emissora e disse que era um sonho estar ali. “Olho no retrovisor com alegria e satisfação por toda essa caminhada, e sou muito grato a você e à Globo pela oportunidade que me deram de bater asas, trabalhar duro e voar alto, ocupando alguns dos mais importantes postos do telejornalismo brasileiro. Fico orgulhoso e feliz com o que pudemos construir e criar juntos. Mas, assim como é preciso persistência e suor para crescer, é preciso sabedoria para parar”, refletiu.

O profissional disse estar com o “espírito leve e a consciência tranquila”, porque não teria agido de má fé. “Jamais tive o intuito de burlar regras ou obter benefício que julgasse incompatível com as funções que ocupava na emissora (isso sim, seria incompatível com a minha história pessoal)”, reforçou ele.

O diretor de jornalismo da Globo respondeu ao email dizendo que aceitava a demissão “com pesar mas, assim como você e pelas razões que você aponta, com a certeza de que é o melhor caminho a seguir. Entendo que é absolutamente sincero quando afirma que não agiu com dolo, e esta carta é uma prova eloquente disto.”

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Obrigado pela companhia. Amanhã tem mais. #JN

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A saída de Dony ocorre exatamente dois anos após ele assumir a bancada do Jornal Hoje. O jornalista também atuava como substituto do Fantástico e do Jornal Nacional. Ele estava na emissora desde 2011 e era visto como candidato à vaga de William Bonner no futuro.

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Relembre o caso

No dia 22, o “Notícias da TV” divulgou que Dony De Nuccio assinou um contrato para ser o garoto propaganda do Bradesco Seguros, tendo gravado alguns vídeos que foram usados durante os treinamentos de funcionários e em eventos com clientes. A equipe jornalística do site teve acesso ao conteúdo e relatou que o apresentador realmente parecia “vestir a camisa” da empresa ao se referir aos clientes com o pronome “nossos”.

Pois é, mais uma vez a Bradesco Vida e Previdência sai na frente e lança um novo plano de Previdência Privada que traz muito mais facilidade para nossos clientes“, dizia Dony em um dos vídeos. A grande questão é que o trabalho desrespeita drasticamente o Código de Ética e Conduta da Rede Globo. Em uma das cláusulas, a empresa determina que “é vedado a qualquer Integrante usar a visibilidade ou o prestígio do Grupo Globo, assim como seu cargo ou função para influenciar alguém ou obter vantagem pessoal, seja patrimonial ou de outra natureza“.

Dony De Nuccio gravou vídeos para o treinamento de funcionários de banco. (Foto: Reprodução)

Após o “freela” de Dony chegar ao conhecimento da empresa, o jornalista pediu que o banco encerrasse o uso das gravações em qualquer plataforma que fosse. Em nota enviada à imprensa, a Globo chegou a declarar que considerava o caso encerrado tendo em vista a providência tomada por Dony e que havia o alertado sobre sua falha. “Dony de Nuccio informou que há cerca de um ano participou de uma produção audiovisual voltada exclusivamente para o treinamento de funcionários, com proibição expressa de que fosse exibida para clientes ou em televisão aberta ou fechada, rádio ou internet. Jamais se tratou de ser ‘o rosto’ de nenhuma empresa. O contratante honrou o contrato e nada fez de errado. Ele não consultou a TV Globo a respeito. Dony afirmou que, diante do fato de que parte da produção se tornou pública, entrou em contato com o contratante para que o trabalho não seja mais utilizado. E que doará o cachê recebido à uma instituição de caridade. Dony disse que fez o vídeo por acreditar que não se tratava de publicidade, já que não se destinava a clientes ou ao público. Com o esclarecimento de Dony e as providências que ele próprio tomou, a Globo considera o caso encerrado. Alertou, contudo, o apresentador para o fato de que seu entendimento sobre a possibilidade de fazer esse tipo de produção está errado“, comunicou o canal.

Em conversa com o “Notícias da TV”, a assessoria do Bradesco Seguros afirmou que retirou todo o material do ar e que não cobrará nenhuma de multa de Dony. Além disso, a veiculação do material publicamente ocorreu de forma clandestina. “A Bradesco Seguros informa que a produção de conteúdo com o jornalista teve o objetivo exclusivo de treinamento interno de funcionários, e que a empresa não autorizou a veiculação em canais externos e em eventos para clientes“, afirmaram em nota.

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No dia 31, entretanto, novas informações sobre o caso surgiram. Segundo o “Notícias da TV”, o jornalista faturou um total de R$ 7.239.692 produzindo “road shows telepresenciais”, vídeos, cartilhas e palestras para o Banco Bradesco. Em alguns vídeos, exibidos apenas a bancários em treinamentos, Dony também atuava como apresentador e entrevistador de executivos do banco. Isso não só contrariava seu contrato com a Globo, como também colocava em xeque o princípio de isenção jornalística.

Dony De Nuccio pede demissão da Globo (Foto: Reprodução/TV Globo)

Além disso, o site encontrou um email que mostrava que De Nuccio esteve envolvido ativamente na negociação de um contrato com o Bradesco, que geraria uma receita de R$ 60.436.800 em três anos. Ele havia negado anteriormente que participava diretamente das discussões de valores.

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O email de demissão de Dony De Nuccio

“Caro Ali,

Como afirmei anteriormente, não tinha conhecimento de que os tipos de serviços prestados pela empresa à qual estava ligado contrariavam normas da Globo. Reitero que minha função não era negociar valores com clientes, mas sim trabalhar na concepção dos projetos e em seu conteúdo.

Frente à recente onda de ataques que venho sofrendo, e com indícios de criminosa invasão de computadores, arquivos e mensagens, procurei vasculhar o histórico de dois anos de emails enviados por mim enquanto cumpria função na empresa. De fato, na esmagadora maioria das vezes, eu não tratava de valores com contratantes. Mas, em algumas circunstâncias pontuais, e das quais eu sinceramente não me recordava, há sim menção a cifras e projetos. Nos poucos casos em que isso aconteceu, a proposta geralmente não prosperou e a contratação não foi efetivada. De qualquer forma, fui traído pela memória. E me penitencio por isso.

Quero acrescentar também que depois de nossa longa conversa e do relato mais pormenorizado que lhe fiz sobre as atividades já desempenhadas pela PrimeTalk, há um serviço pontual que incluiu o que pode ser interpretado como assessoria de imprensa. Entendo com os olhos de hoje que o escopo dos serviços prestados ultrapassa os limites do que a Globo espera de seus jornalistas. E lamento que, mesmo sem dolo, não tenha percebido isso antes. Não quero mais – por qualquer que seja o artigo ou vazamento na contínua tentativa de destruir minha reputação – constranger você, a Globo ou a minha família.

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Desde muito cedo na vida sonhei em trabalhar com televisão, e procurei ao longo de toda minha trajetória me preparar para poder, algum dia, agregar muito valor aos quadros da Globo. Foi pensando nisso que procurei a formação acadêmica mais sólida possível, com jornalismo, economia, extensão internacional e mestrado em economia e finanças.

Em 2011 abri mão de uma promissora carreira no mercado financeiro, para me tornar repórter nos quadros da Globo. Parecia uma decisão difícil, mas não foi: representava o começo de uma nova caminhada, com a qual eu sonhava desde tempos remotos.

Dentro da emissora tive a possibilidade de trabalhar nos mais diversos telejornais e funções, e participar de algumas das coberturas mais marcantes da história do nosso país. Fui repórter do Jornal da Globo, do BDSP, SPTV1 e SPTV2. Fui editor de economia e comentarista do Jornal das 10 e do Hora 1. Ajudei a criar e depois apresentar programas como o Conta Corrente e GloboNews Internacional, além de ancorar o próprio J10, participando de análises políticas e econômicas com algumas das maiores referências do ramo no jornalismo brasileiro. Nos últimos dois anos, tive a imensa alegria e desafio de comandar o Jornal Hoje, dividindo bancada com a talentosa, inspiradora e hoje amiga pessoal, Sandra Annenberg. E ainda pude apresentar o Fantástico e o Jornal Nacional em diversas ocasiões.

Olho no retrovisor com alegria e satisfação por toda essa caminhada, e sou muito grato a você e à Globo pela oportunidade que me deram de bater asas, trabalhar duro e voar alto, ocupando alguns dos mais importantes postos do telejornalismo brasileiro. Fico orgulhoso e feliz com o que pudemos construir e criar juntos.

Mas, assim como é preciso persistência e suor para crescer, é preciso sabedoria para parar.

Nas últimas semanas me vi mergulhado em uma infindável onda de ataques, com a vida dentro e fora da Globo vasculhada e revirada, sigilos fiscais violados, endereços expostos, trabalhos de exclusiva veiculação interna publicados, e até e-mails privados hackeados.

Quanto mais perto estamos do topo da montanha, mais forte é o vento. E é esperado que seja assim. Mas essa contínua campanha para me destruir e sangrar a qualquer custo não pode prosperar. Não faz bem nem a mim, nem à minha família e nem à emissora. Não é justo com nenhum de nós.

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Por esse motivo, embora com aperto no coração, solicito meu afastamento do telejornalismo.

E o faço com o espírito leve e a consciência tranquila, porque jamais ajo de má fé. Jamais tive o intuito de burlar regras ou obter benefício que julgasse incompatível com as funções que ocupava na emissora (isso sim, seria incompatível com a minha história pessoal). Trabalhei, duro e dobrado, para complementar a renda, fora do horário da Globo, e dentro dos limites que ao meu ver eram compatíveis e aceitáveis. Se errei, não foi com dolo, e humildemente peço desculpas.

Estou convicto de que em cada um dos dias em que aqui estive tratei com respeito e lealdade a todos com quem interagi, independentemente da função ou hierarquia. E sempre enxerguei a todos não como colegas de trabalho, mas como amigos.

Saio, neste momento, certo também de que em cada um dos dias e anos em que aqui trabalhei, sempre atuei com absoluta paixão e dedicação para levar ao público a notícia da forma mais atraente, correta, completa e interessante possível.

Mais uma vez, muito obrigado pela parceria, pelas oportunidades e pela confiança.

Construímos uma história incrível.

Dony de Nuccio.”

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A resposta de Ali Kamel

“Caro Dony,

Agradeço sua carta honesta e transparente. Aceito o seu pedido de demissão com pesar mas, assim como você e pelas razões que você aponta, com a certeza de que é o melhor caminho a seguir. Entendo que é absolutamente sincero quando afirma que não agiu com dolo, e esta carta é uma prova eloquente disto. Nossa longa conversa de hoje cedo permitiu que eu entendesse as suas motivações e você entendesse as razões da Globo. Agradeço os anos em que trabalhou na Globo, que você descreveu tão bem. E o seu empenho e a sua dedicação. Um abraço e sorte na sua nova trajetória,

Ali Kamel.”

Nova norma para jornalistas da Globo

Junto aos emails, a Globo ainda divulgou uma nota informando que irá editar um texto para tornar mais claras as regras para participação de jornalistas em atividades fora da emissora. Confira abaixo, na íntegra:

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“A direção de Jornalismo da Globo informa que foi procurada por alguns de seus jornalistas que relataram que foram contratados por terceiros para participação em eventos institucionais gravados em vídeo, mas sempre com proibição expressa de que as imagens fossem veiculadas ao público externo ou a clientes.

“Em alguns casos, a participação se deu com autorização da Globo por não ferir as políticas atuais da empresa. Em outros casos, a participação foi inadequada, mas sem má-fé. Todos informaram que não possuem empresas prestadoras de serviços de marketing, assessoria de imprensa ou de projetos de comunicação empresarial.

A Globo, ciente agora de que persistem em algumas dúvidas sobre como agir diante de convites, informou que em breve um comunicado reiterará o que é proibido e o que não é, em detalhes, levando em conta a era digital em que vivemos.”