Dois dos quatro adolescentes suspeitos pela morte do cão comunitário em Florianópolis, chamado carinhosamente de Orelha, estão nos Estados Unidos. A atualização foi dada pelo delegado-geral de polícia de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, nesta terça-feira (27). A Polícia Civil tomou conhecimento ontem (26).
Conforme o delegado, a viagem dos suspeitos estava programada antes do ocorrido. Eles devem retornar para a capital catarinense na próxima semana. “Dois adolescentes foram alvo de busca, e outros dois estão nos Estados Unidos para uma viagem que, segundo consta, era pré-programada”, declarou Gabriel.
De acordo com o g1, a PC indiciou três adultos suspeitos de coagir ao menos uma testemunha na apuração sobre a morte de Orelha. Em coletiva de imprensa ainda hoje, a corporação explicou que os investigados são pais e um tio dos adolescentes. Dois deles são empresários e o outro advogado.
Até o momento, os nomes não foram revelados pelos delegados, e a PC constatou que o crime foi cometido contra o vigilante de um condomínio, que teria uma foto com capacidade de colaborar com a investigação da ocorrência.

Por ora, a corporação não revelou se teve acesso a esse registro específico, mas disse analisar mais de mil horas de imagens de câmeras de segurança. O funcionário, por sua vez, foi afastado com férias compulsórias por segurança pessoal.
Tendo em vista que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê sigilo absoluto nos procedimentos envolvendo menores de 18 anos, as identidades dos quatro adolescentes também foram preservadas. Os outros dois que permaneceram em Florianópolis foram alvos de uma operação nesta segunda-feira (26).
Caso o envolvimento dos quatro menores com a morte de Orelha seja comprovado, eles responderão por ato infracional. Somente no inquérito que apura o crime de coação, 22 pessoas foram ouvidas. A Justiça não autorizou a apreensão dos aparelhos eletrônicos dos adultos.
Ainda ontem, Ulisses relatou que o mesmo grupo de adolescentes também é suspeito de tentar afogar outro cachorro, chamado Caramelo. Conforme o delegado, a tentativa aconteceu no mesmo dia da morte de Orelha. No entanto, o cão conseguiu escapar e sobreviveu. Em uma postagem no Instagram, o delegado confirmou que adotou o animal e que ele está saudável após ter sido resgatado.
Ulisses afirmou que “quis o destino” que ele e a esposa adotassem o Caramelo. Ele também garantiu que os responsáveis pelos maus-tratos dos cães serão responsabilizados por seus atos. “Pau que bate em Chico, bate em Francisco. A justiça será feita, independentemente de quem sejam os autores que praticaram essa triste e lamentável ação criminosa contra esses dois animais”, escreveu.

Os adolescentes envolvidos serão ouvidos pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso. O caso é investigado desde 16 de janeiro e está sob responsabilidade conjunta das promotorias da Infância e Juventude e do Meio Ambiente de Florianópolis. O Ministério Público de Santa Catarina informou que acompanha o andamento das investigações e irá analisar as providências cabíveis após a conclusão do inquérito policial.
Entenda o caso
De acordo com os relatos dos moradores, Orelha estava desaparecido. Dias depois, uma das pessoas que cuidavam dele, o encontrou durante uma caminhada, caído e agonizando. Ela recolheu o animal e o levou a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade dos ferimentos, ele foi submetido à eutanásia.
Exames periciais no corpo do cachorro confirmaram que ele foi atingido na cabeça com um objeto contundente, ou seja, sem ponta ou lâmina. O instrumento usado na agressão não foi encontrado.
Em entrevista à NSC TV, o empresário e morador da região, Silvio Gasperin, explicou como a comunidade tomou conhecimento do caso. “A Fátima ficou sabendo, mas não encontrou ele de imediato. Em uma caminhada, achou ele jogado e agonizando. Recolheu, levou ao veterinário. Precisa de justiça, né?”, cobrou, emocionado.
Orelha estava em uma das três casinhas de Praia Brava, destinadas aos cães que se tornaram mascotes da região. “Muita gente vinha trazer comida para eles, mas eu era o responsável por alimentá-los todos os dias. Eles não podiam ficar sem comida e sem cuidado”, contou o aposentado Mário Rogério Prestes, que acompanhava de perto os animais.

Em comunicado, a Associação de Moradores da Praia Brava destacou o papel afetivo do cão. “Orelha fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos e era cuidado espontaneamente pela comunidade, tornando-se um símbolo simples, porém muito querido, da convivência e da relação de cuidado que muitos mantêm com o espaço e com os animais que aqui vivem”, declarou.
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