Ex-funcionário da família Bolsonaro diz que dava 80% do salário para ex do presidente, e faz revelações sobre mansão

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Um ex-funcionário da família Bolsonaro acusou Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente da república, de ter ficado com 80% de seu salário, assim como de outros empregados. A denúncia foi feita ao jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles, e confirmada também pela jornalista Juliana Dal Piva, do UOL, que apurou outros detalhes sobre o ex-assessor.

Marcelo Luiz Nogueira disse que nos 14 anos de serviços prestados, testemunhou uma série de crimes que teriam sido cometidos pela advogada. Segundo ele, Ana Cristina comandava o esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual e atual senador, Flávio Bolsonaro: “Quando o Flávio foi eleito, ela fez o Bolsonaro fazê-la tomar conta do gabinete do Flávio também. Ela que era a mandachuva”.

Após se demitir por não receber seu salário, o ex-funcionário reconstituiu todos os anos em que serviu à família. Inicialmente, trabalhou na campanha de 2002 de Flávio para deputado estadual e, entre 2003 e 2007, permaneceu em gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Marcelo confessou ter devolvido 80% de tudo o que recebeu enquanto foi servidor na ALERJ – cerca de R$ 340 mil no total.

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Segundo ele, Ana Cristina foi quem precedeu Fabrício Queiroz – investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por organização criminosa, crimes de peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita – no recolhimento das rachadinhas não só no gabinete de Flávio, mas também no de Carlos, eleito vereador da Câmara do Rio em 2000. Após a separação dela e Jair Bolsonaro, em 2007, Flávio e Carlos teriam assumido a responsabilidade pelo recolhimento dos valores dos funcionários de seus gabinetes.

Foi também neste mesmo ano que o presidente pediu a Marcelo que exercesse o papel de uma espécie de babá de Jair Renan, filho do casal, até a advogada se mudar para a Europa. Finalmente, entre 2014 e 2021, Nogueira trabalhou como empregado doméstico de Ana Cristina em suas casas, primeiro em Resende (RJ) e, nos últimos meses, em Brasília.

As denúncias do ex-empregado, entretanto, não param por aí. Ele acusou Ana Cristina de ter formado todo o seu patrimônio, estimado em R$ 5 milhões em 2020, usando uma série de laranjas, inclusive na compra da mansão em que ela vive atualmente em Brasília, no Lago Sul, com o filho Renan. De acordo com Marcelo, a advogada não alugou a residência, mas comprou, por meio de dois laranjas, com quem firmou um contrato de gaveta – documento informal não registrado em cartório, para que o imóvel seja repassado em seu nome ao final do financiamento. “Ela mesma me contou! Participei de tudo, de toda a transação. Ela contava pra mim e para o Renan. Sei de tudo”, afirmou.

A ideia seria não chamar a atenção da imprensa para a compra de mais uma propriedade de luxo pela família Bolsonaro – a mansão tem 1.200 m² de área total e 395 m² de área construída, uma piscina de 50 m², aquecimento solar e quatro suítes. O caso foi noticiado pelos repórteres Letícia Casado, Juliana Dal Piva, Eduardo Militão e Rafael Moraes Moura. Além do financiamento em nome dos falsos proprietários, Ana teria usado dinheiro da venda de um imóvel e de reservas guardadas desde a época em que comandava o desvio de verba dos gabinetes de Flávio e Carlos.

Ainda de acordo com o depoimento de Marcelo, a ex-esposa de Jair não se envolvia no eventual recolhimento de valores dos funcionários de seu gabinete enquanto deputado federal, restringindo-se a articular o esquema na ALERJ e na Câmara Municipal do Rio. Todo mês, o ex-funcionário sacava 80% de seu salário e entregava o dinheiro em espécie nas mãos da advogada, além de entregar uma porcentagem semelhante do 13º, das férias, do que recebia como vale-alimentação e até da restituição do imposto de renda. Segundo as declarações, todos os assessores de Flávio faziam o mesmo, bem como os de Carlos.

Com a ajuda de Jair Renan, Marcelo deixou a casa em junho e passou algumas semanas no apartamento de Jair Bolsonaro, no Sudoeste, também em Brasília. Em agosto, voltou ao Rio de Janeiro, não sem antes procurar o Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal para denunciar violações trabalhistas contra a advogada. Ele acusou Ana Cristina de mantê-lo em condições análogas à escravidão.

“Falei para ela: ‘Cristina, não sou obrigado a morar na sua casa. Trabalho para ter meu canto e em Brasília tudo é caro. Você pensa que vou ficar na sua casa e ser seu escravo? A escravidão já acabou. Você é racista. Isso é racismo. Você me tirou lá do Rio só porque em Brasília eu não tenho ninguém e não conheço nada? Acha que vou aceitar o que quer fazer comigo?'”, contou ao Metrópoles.

Também para a publicação, a defesa de Flávio Bolsonaro declarou que o parlamentar desconhece as afirmações de Nogueira e disse não saber de supostas irregularidades que possam ter sido praticadas por ex-servidores da ALERJ ou possíveis acertos financeiros que eventualmente tenham sido firmados entre esses profissionais. A nota ainda afirmou que Flávio sempre seguiu as regras da Assembleia Legislativa e que tem sido vítima de uma campanha de difamação.

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Renan presta homenagem a Marcelo

Em junho deste ano, Jair Renan, quarto filho do presidente da república, prestou uma homenagem a Marcelo Nogueira nas redes sociais, parabenizando o antigo funcionário da família pelo seu aniversário. Marcelo, ao longo desses anos todos, você tem sido um grande amigo para mim. Você me ensinou muito, especialmente a como me tornar uma boa pessoa”, escreveu.

“Sua empatia e seu carinho são contagiantes, e eu serei eternamente grato a Deus por tê-lo colocado em nosso caminho. Que neste aniversário seu coração possa transbordar com o dobro da felicidade que você trouxe para nossa família! Obrigado por tudo!”, concluiu. Após as acusações, a publicação foi deletada. Confira:

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(Foto: Reprodução/Instagram)