Entrevista: Billie Eilish revela por que Brasil é seu “docinho” especial e abre o jogo sobre depressão: “Saí disso, mas não estou curada”

Jovem, poderosa e sem medo de se expressar. Indicada seis vezes no “Grammy 2020”, tornando-se a pessoa mais nova a disputar o prêmio de “Álbum do Ano”, Billie Eilish virou um fenômeno da música em pouquíssimo tempo. Em entrevista exclusiva ao hugogloss.com, a dona do hit “bad guy” abriu o jogo sobre o lado obscuro de si mesma, revelando como superou fases difíceis de sua vida. A estrela ainda explicou sua relação especial com o Brasil e o que virá em sua carreira.

Dos 13 aos 16 anos, Billie precisou lutar contra a depressão e outras questões de sua saúde mental, como crises de pânico. Agora, aos 17 anos, apesar de ter melhorado, ela não se considera completamente curada. “Eu acho que eu saí disso, o que não significa que estou curada – não podemos tratar assim. Acredito quando se sai de um lugar como esse, não dá pra decidir que está tudo bem, que nunca vai acontecer novamente. Você tem que ser grato por isso e ter noção do fato de que você está melhor”, opinou a cantora.

Billie Eilish nunca escondeu suas questões com sua saúde mental, e acredita que a paciência consigo mesma foi o que a ajudou a superar a depressão (Foto: Getty)

Na recuperação, ter paciência foi um dos melhores remédios para a depressão. “No meu caso, foram várias coisas [que ajudaram], acho que uma delas foi ser paciente comigo mesma e com as pessoas ao meu redor. E não me torturar por sentir algo, ou me forçar a não sentir alguma coisa”, recomendou a “Artista Revelação” do “VMA 2019”.

Na nossa conversa, Eilish abordou também como aderiu ao veganismo, lá em 2014, por conta de sua dismorfia corporal – transtorno em que a pessoa tem foco obsessivo em defeitos que considera ter. “Quando me tornei vegana, cinco anos atrás, na verdade, fiz isso porque eu tive dismorfia corporal – eu pensava que estava gorda. Então, esse é o motivo pelo qual eu comecei”, disse, lembrando que a transição não foi tão complexa assim.

Apesar dos benefícios físicos que teve, sua razão central foi outra: “Tem a questão principal, o motivo ético, que é pelos animais serem tratados de forma tão deplorável – é realmente chocante, eu não consigo. Não gosto de sentir que estou contribuindo com alguma coisa desse mundo”.

Prestes a vir ao Brasil em maio de 2020, Eilish também falou o quanto o país é um “docinho” especial para ela. “É engraçado como tem sido, estamos como que ‘economizando’ o Brasil. Houve vezes em que poderíamos ir, mas nós não queríamos ainda, porque nosso desejo era que fosse o maior e mais poderoso possível”, confessou a estrela. “O Brasil é como um docinho para mim, que estou economizando para o melhor momento, e estou realmente empolgada para ir”, revelou. Fofa, né?

Por falar em Brasil, Billie não sabe dizer se conhece trabalhos nacionais, quando questionada sobre parcerias com nossos artistas, como Anitta, Ludmilla, ou Pabllo Vittar, por exemplo: “Eu realmente não sei de onde são as pessoas de quem sou fã, não busco pela vida dos artistas. […] Então, eu não sei de verdade se sou fã de brasileiros. Provavelmente sim, de muitos, eu só não sei sobre isso”, continuou.

Quantos às expectativas pelo Grammy, após ter feito história, ela afirma que “é uma honra. De verdade, é muito legal se sentir como que validada por algo que eu faço, ter alguma validação. Eu acho que é realmente satisfatório”. E se 2019 foi assim, 2020 tem tudo para ser um ano ainda mais promissor…

Após ter saído vitoriosa como ‘Artista Revelação’ do ‘AMA’, ‘VMA e do ‘EMA’ em 2019, Billie Eilish chega entre os favoritos ao “Grammy 2020”. (Foto: Getty)

Confira a entrevista na íntegra:

HugoGloss.com – Primeiramente, meus parabéns pelas indicações ao Grammy! Você foi indicada em seis categorias e já fez história, sendo tão jovem e disputando nas quatro categorias principais. Como foi sua reação ao saber disso? Você acredita que essas indicações são como uma validação para o seu trabalho e sua música? Está nervosa para a grande noite?

Billie Eilish – Eu sinto que só ouvi coisas boas sobre o “Grammy”. Eu aguardo por isso ansiosamente porque cresci assistindo à premiação todo ano. Na minha família, nós praticamente nunca perdemos nenhum dia. E, não sei, é uma honra. É realmente muito legal se sentir como que validada por algo que eu faço, ter alguma validação. Eu acho que é satisfatório de verdade.

HG – Em julho você fez um remix maravilhoso de “bad guy” com o Justin Bieber, de quem você sempre foi fã desde a juventude, né? Depois dessa colaboração, ainda existe alguém com quem você sonhe em trabalhar? Quem? Você planeja algo sobre isso?

BE – Trabalhar com outras pessoas? Hm, não sei, talvez essa seja a pergunta que mais fazem a mim do que qualquer outra. É engraçado, porque essa é uma questão tão comum para se perguntar aos artistas, tipo, ‘Com quem você quer colaborar?’, qual a colaboração dos sonhos. Eu entendo isso, porque, obviamente, você também quer saber isso como um fã.

Mas eu genuinamente não sinto a necessidade [de colaborar com alguém]. Eu sinto que quero mesmo é fazer amizade com as pessoas. Só porque eu encontrei um artista, não significa que eu tenho que cantar com ele, sabe? Porque às vezes eu encontro alguns, posto uma foto nossa e todos ficam, ‘eles estão trabalhando numa música’, e eu sempre fico tipo, ‘Droga! Não, a gente não está! Nós só nos conhecemos’. [Risos] Quer dizer, estou sempre aberta a isso, mas não é algo que eu esteja procurando.

HG – Em maio do ano que vem você vem ao Brasil para dois shows no país. Você já esteve no Brasil? Qual sua expectativa? Você já imagina o que fazer quando vier pra cá?

BE – Eu nunca estive no Brasil, vai ser minha primeira vez. E é engraçado, porque o Brasil foi um dos primeiros lugares de todos em que eu tive uma “fanbase”, o primeiro apoio veio do Brasil. Eu já estive em todo lugar, viajando pelo mundo, mas o Brasil… É engraçado como tem sido, porque nós estamos como que economizando o Brasil, tipo, literalmente.

Houve vezes em que poderíamos ir, mas nós não queríamos ainda, porque nosso desejo era que fosse o maior e mais poderoso possível. Então, nós literalmente economizamos isso, guardamos como se fosse um docinho. O Brasil é como um docinho para mim, que estou economizando para o melhor momento, e estou realmente empolgada para ir.

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HG – Falando também sobre Brasil, você já pensou em experimentar algum trabalho com gêneros da música pop brasileira, ou funk? Alguns artistas têm feito parcerias com Anitta, Pabllo Vittar, Ludmilla, que são grandes nomes por aqui… O que você acha?

BE – Isso é irado. Eu realmente não sei de onde são as pessoas de quem sou fã. Eu não busco pela vida dos artistas. Eu apenas não penso sobre isso, eu só gosto de músicas e de artistas, e então, mais cedo ou mais tarde, descubro onde eles nasceram ou coisa do tipo. Isso é algo engraçado sobre mim, não é sobre conhecer o passado de alguém, ou a infância de alguém, eu não sei mesmo. É divertido ouvir músicas sem saber nada sobre a pessoa, ou onde cresceram, de onde vieram, ou qualquer outra coisa. Então, eu não sei de verdade se sou fã de brasileiros. Eu acredito que provavelmente sim, de muitos, eu só não sei sobre isso.

HG – Nos últimos dois anos, sabemos que a sua fama foi astronômica. Podemos observar isso até pelos seus números nas redes sociais, nos streamings, nas plataformas digitais, como os 4 bilhões de visualizações que você tem no YouTube. Como você explica esses dados e essa fama?

BE – Tem sido muito louco ver como tudo tem crescido tão rápido. Especialmente este ano, porque eu lembro quando consegui um milhão de seguidores, em março de 2018. E agora são quase 50 milhões, entende? Isso é maluco, um ano e meio depois e tem 50 milhões de pessoas me seguindo. [Risos]. Além dos números das minhas canções, os vídeos e todas as coisas…. É doido demais. Eu realmente não sei o que dizer sobre isso. É tudo meio que ‘surreal’ para mim.

HG – Você teve de lidar com a depressão, desde os 13 anos, e agora está recuperada. Como você conseguiu sair dessa e o que o nosso leitor que está passando por isso pode fazer por ele?

BE – Eu acho que eu saí disso, o que não significa que estou curada. Então, não podemos tratar como se eu estivesse curada. Acredito quando se sai de um lugar como esse, não dá pra decidir que está tudo bem, que nunca vai acontecer novamente. Você tem que ser grato por isso e ter noção do fato de que você está melhor.

Se você começar a ter sentimentos negativos novamente, isso não é uma coisa ruim. Tenho pensado nisso ultimamente. Muitas pessoas, quando saem deste lugar, se atrevem a pensar que não têm permissão de se sentirem tristes novamente, porque todos ficam ‘mas você melhorou, você não está triste mais’. Isso me fez pensar, ‘Não posso ficar triste nunca mais?’. E isso é algo que você precisa se lembrar: você sempre pode se sentir da maneira como está se sentindo.

Billie Eilish em sua apresentação no ‘Coachella 2019’. (Foto: Getty)

Apenas se lembre das coisas que te tiraram deste lugar. No meu caso, foram várias coisas, acho que uma delas foi ser paciente comigo mesma e com as pessoas ao meu redor. E não me torturar por sentir algo, ou me forçar a não sentir alguma coisa. Acho que foi só me permitir sentir como estava sentindo e apenas ser paciente, é tudo o que eu posso dizer.

HG – Desde quando você não come nada de origem animal? De onde surgiu essa decisão, e quais foram as razões?

BE – Eu cresci sendo vegetariana, então nunca comi carne na minha vida. Acontece que isso torna a transição ao veganismo bem mais fácil pra mim do que para a maioria das pessoas. Quando me tornei vegana, cinco anos atrás, na verdade, eu fiz isso porque eu tive dismorfia corporal, e eu pensava que estava gorda. Então, esse é o motivo pelo qual eu comecei.

Mas então eu percebi por que foi bom não comer laticínios, não comer carne, eu aprendi muito sobre essas indústrias. Isso realmente ajudou a minha pele, – o que é uma parte importante da história –, os derivados do leite são muito ruins para a pele de muita gente. Para mim, estava me dando dores no estômago e coisas do tipo, eu percebi que sou um pouco intolerante a isso. Mesmo que não tivesse visto isso antes, percebi depois porque me senti muito melhor.

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E tem a questão principal, o motivo ético, que é pelos animais serem tratados de forma tão deplorável – é realmente chocante, eu não consigo. Não gosto de sentir que estou contribuindo com alguma coisa desse mundo.

Enfim, não empurro nada pra cima de ninguém, eu não acho que as pessoas devem fazer isso ou aquilo. Acredito que todos têm o direito de fazer o quiserem, comer o que bem entenderem, o que tiverem vontade. Tenho os meus próprios motivos e me mantenho fiel a eles.

HG – Como é a parceria com seu irmão? Vocês sempre se deram bem? Ele disse que vocês já estão escrevendo um novo álbum… O que podemos esperar? Como todas essas mudanças na sua vida, na sua saúde mental e carreira estarão refletidas?

BE – Eu não sei o que há de vir, porque, na verdade, nós ainda não começamos a compor [o álbum]. Eu não sei porque todos acreditam que nós temos um álbum pronto. Nós temos algumas músicas com as quais estamos trabalhando, mas não sabemos para onde elas vão, se elas vão para algum álbum no futuro, ou se apenas serão músicas.

Acho que agora tenho muito material para músicas dentro de mim, e [produzir o álbum] é algo que estou esperando ansiosamente. Mas estou realmente aberta para compor algumas coisas agora, e acho que eu meu irmão só vamos fazer nosso trabalho como sempre, naturalmente.