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Professor é preso em Goiás por não retirar de carro faixa de protesto contra Bolsonaro: ‘Fui espancado’; Policial é afastado

Na tarde dessa segunda-feira (31), o professor do ensino médio e dirigente do PT em Goiás, Arquidones Bites, foi preso por policiais militares em Trindade, região metropolitana de Goiânia, por se negar a retirar do capô de seu carro uma faixa em protesto contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que dizia: “Fora Bolsonaro genocida”.

Segundo o agente, identificado como Tenente Albuquerque, o professor estaria descumprindo a Lei de Segurança Nacional ao caluniar o presidente da República. O momento da abordagem foi registrado por Arquidones e outras testemunhas ao redor. “Eu vou dar voz de prisão pro senhor. Quer ver? Está duvidando?”, ameaça o policial, antes de ler trechos da lei para o dirigente.

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“Genocídio é crime. O senhor está falando que ele (Bolsonaro) é criminoso. Então, o senhor vai ter que provar”, continuou o militar que, vale citar, estava sem máscara. Bites, que foi vereador em Trindade por dois mandatos, se recusou a remover a faixa de seu carro e reafirmou que Bolsonaro é genocida, citando os 500 mil mortos no Brasil para a Covid-19 e as constantes recusas do Governo Federal a ofertas de vacinas. A discussão se estendeu por mais alguns minutos e se intensificou. Em um dos trechos divulgados, podemos ver que o professor chegou a levar um mata-leão de um dos policiais.

Arquidones foi encaminhado primeiro para a delegacia da Polícia Civil em Trindade, onde o delegado não quis registrar a prisão. Na sequência, ele foi levado para a sede da Polícia Federal em Goiânia, onde foi ouvido e liberado por volta das 21h. Lá, o dirigente alegou ter sido espancado pelos policiais.

Durante sua soltura, o professor foi recepcionado por terceiros com aplausos e discursou em frente à sede da Polícia Federal. Emocionado, ele protestou em memória do irmão caçula, Arquicelso Bites, mais uma das vítimas da Covid-19. “Somos 19 irmãos, foi morrer justamente o caçula. Ele saiu da ordem. Saiu da ordem porque o presidente da República, esse genocida, não comprou vacina. Ele (Bolsonaro) dizia que era simplesmente uma gripezinha. Não podemos aceitar isso, gente! Eu fui preso, fui quase enforcado, levei empurrão, soco, mas estamos na luta”, declarou.

O ex-vereador também deu mais detalhes sobre o caso, explicando que quem dirigia o carro com a faixa, num primeiro momento, era sua namorada. “Minha namorada ligou, disse que os policiais iam prender o carro se ela não tirasse a faixa. Eu fui até lá e falei pro policial: ‘Esse é meu direito de me manifestar. Na minha família morreram várias pessoas dessa doença porque o presidente não providenciou a vacina’. Além de ser militante, eu tenho essa revolta de ter acontecido na minha família. Estou revoltado por todo mundo, mas por meu irmão e minha sobrinha, que morreu semana passada, a revolta cresce mais”, afirmou Arquidones.

Os PMs ainda queriam voltar com o petista para a delegacia de Trindade e autuá-lo por abuso de autoridade, mas acabaram recuando diante da pressão popular na porta da PF, segundo o advogado Edilberto Dias, que representa Arquidones.

Policial é afastado

Nesta terça-feira (1º), a Secretaria de Segurança Pública (SSP) afastou das ruas o agente que prendeu Arquidones, afirmando em nota que o profissional “responderá a inquérito policial e procedimento disciplinar para apuração de sua conduta“. Tenente Albuquerque ainda poderá exercer funções administrativas.

No comunicado enviado ao G1, a SSP reforçou que “não coaduna com qualquer tipo de abuso de autoridade, venha de onde vier. Assim sendo, todas as condutas que extrapolem os limites da lei são apuradas com o máximo rigor, independentemente do agente ou da motivação de quem a pratica“.

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O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Serra, disse que a conduta dos policiais precisa ser investigada pela Corregedoria da PM. “Não se pode enquadrar como crime o direito do cidadão criticar ou manifestar sua indignação dentro dos limites da liberdade de expressão”, comentou.

O caso também ganhou grande repercussão nas redes, e não demorou muito para que internautas resgatassem uma imagem do tenente posando ao lado de Jair Bolsonaro, a quem defendeu dos protestos de Arquidones.