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Mulher é executada a tiros em Curitiba, e namorada lamenta: ‘Ana só queria ser feliz sendo lésbica’; Polícia prende dois suspeitos

Mais uma história de cortar o coração… Na manhã do dia 22 de junho, Ana Paula Campestrini, de apenas 39 anos, foi executada com 14 tiros ao chegar em sua casa. A tragédia, que durou cerca de 10 segundos, foi registrada pelas câmeras de segurança do condomínio em que ela morava, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, no Paraná.

A delegada Tathiana Guzella, que investiga o caso, afirmou que a pessoa que matou Campestrini agiu de forma cruel. “Testemunhas confirmaram não ter havido diálogo entre o atirador e a vítima. Há extrema crueldade no ato, foram recolhidos no local 14 estojos de arma calibre 9 milímetros (…). Dá a impressão, pelas imagens, que era uma pessoa que tinha experiência com os disparos de arma de fogo”, declarou ela ao G1.

Relacionamento abusivo

Nascida na pequena cidade de Lontras, no interior de Santa Catarina, Ana Paula se casou com o advogado Wagner Oganauskas, teve três filhos e dedicou-se exclusivamente à família e ao relacionamento por 17 anos. No entanto, em 2018, após um grande processo de desenvolvimento pessoal, a mulher se entendeu lésbica, assumiu sua sexualidade e pediu o divórcio. Foi então que Campestrini passou a sofrer chantagens e ameaças do ex.

Em trechos de mensagens trocadas pelo antigo casal, divulgados pelo UOL, o ex-parceiro de Ana falava com ela de forma abusiva. “A vida vai te cobrar a fatura”, escreveu Wagner. “Você quer desistir sem nem tentar. E eu repito: você vai desistir dos seus filhos. Da felicidade deles. E a vida vai te cobrar a fatura”, acrescentou ele em outro registro.

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Nas mensagens agressivas, o advogado ainda citou frequentemente os filhos, que hoje têm 9, 11 e 17 anos, e se referiu à ex como “bruxa”, “egoísta” e “insensível”. “[…] Esse negócio acabou com o ano de treinamento da (o nome da filha, que não foi divulgado). Ela está sem cabeça. Está comendo como uma porca por ansiedade, já passou de 52 quilos. Espero que você esteja contente por ficar olhando pro teu umbigo. Você não pensou em mais ninguém, nem nos teus filhos”, acusou.

O UOL apontou, ainda, que nas conversas às quais teve acesso, Campestrini sempre manteve um tom neutro e pacífico, em uma tentativa de acalmar o advogado. “Wagner, eu não te amo mais como marido. Isso é difícil para mim também, acredite, não é fácil como parece”, escreveu ela. Mesmo assim, Ana continuou sendo ameaçada, enquanto disputava com o ex-marido judicialmente a guarda dos filhos e a divisão do patrimônio estimado em mais de R$ 2 milhões, que construíram ao longo dos 17 anos de casamento.

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Nova fase

O divórcio, o entendimento da própria sexualidade e a distância de seus filhos fizeram com que 2018 fosse um ano extremamente difícil para Ana Paula. No entanto, ela finalmente encontrou a felicidade após conhecer Luana Melo, em fevereiro de 2019. “Tudo começou com um ‘oi’ num aplicativo de relacionamento. Começamos a conversar todos os dias e marcamos de nos encontrar em 13 de fevereiro, uma quarta-feira. Desde então, a gente não se desgrudou mais. Nossa conexão foi muito rápida”, contou a namorada de Ana ao Blog de Angélica Morango.

Melo relembrou que, em 2019, fazia pouco tempo que Ana tinha saído de casa, mas já estava tendo problemas para ver as crianças e sofria muito. “Eu também estava passando por um momento difícil, e posso dizer que nós duas nos curamos juntas. Compramos móveis, terminamos de pagar esse ano. Tínhamos parcelado em 18 vezes… A gente estava muito feliz com tudo o que estávamos conquistando juntas, com o nosso suor, trabalhando, não dependendo de ninguém”, revelou.

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Luana ainda detalhou a personalidade incrível da amada. “A Ana Paula era uma pessoa muito boa. Pessoas como ela são raríssimas no mundo. A gente fala que quando uma pessoa morre, ainda mais de uma maneira tão trágica, a gente esquece todos os defeitos dela e a exalta, independentemente de ter tido problemas com ela ou não. E a Ana Paula já era boa, já era exaltada. Era uma pessoa maravilhosa, de um coração imenso, que não tinha problema com ninguém, não brigava com ninguém”, declarou. “A única coisa que ela queria era poder ser feliz sendo quem ela era (uma mulher lésbica) e poder ter contato com os filhos. E ela foi arrancada das nossas vidas”, desabafou, com a voz embargada.

Pedido por justiça

Em levantamento recente, com dados de 2020, feito pela Acontece Arte e Política LGBTI+ e Grupo Gay da Bahia, uma pessoa LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexo, assexuais e demais existências de gênero e sexualidade) é violentamente morta a cada 36 horas no Brasil. Os números são ainda mais alarmantes, já que grande parte dos óbitos é subnotificado – estatística da qual amigos e familiares de Ana não querem que ela faça parte.

O caso de Campestrini causou tanta comoção que, no último domingo (27), dezenas de pessoas caminharam pelas ruas centrais de Curitiba pedindo que a polícia local agilizasse a apuração do assassinato. Desde o início das investigações, dois suspeitos foram detidos: o primeiro deles sendo o ex-marido de Ana, Wagner, e o segundo, Marcos Antônio Ramon, amigo de Oganauskas.

De acordo com a delegada Guzella, Ramon recebeu uma quantia de R$ 38 mil, transferida da conta de Wagner, em abril deste ano. “Esses repasses foram efetivamente o pagamento recebido pelo atirador para a morte de Ana Paula Campestrini”, afirmou a delegada ao jornal “Bom dia Paraná”.

A Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) investiga a morte de Ana Paula como feminicídio e a motivação seria a disputa judicial pela guarda dos filhos e bens após o divórcio, já que no último mês, Ana conquistou decisões favoráveis, principalmente sobre as questões patrimoniais. Fica aqui nosso apoio à família de Ana Paula e Luana. Que a justiça seja feita.