Ana Paula Padrão revela como despistou o Talibã no Afeganistão e detalha fuga dramática: ‘Momento que mais tive medo’

Nas últimas semanas, a situação caótica no Afeganistão tem ecoado na mídia global, após o grupo extremista Talibã reassumir o comando do país, que nos últimos 20 anos foi ocupado pelas forças armadas norte-americanas. As tantas notícias reviveram memórias de Ana Paula Padrão, que em diferentes ocasiões, visitou o local a trabalho.

Em entrevista ao Splash, do UOL, a jornalista falou sobre algumas das experiências mais marcantes que viveu por lá, como por exemplo, ter furado o bloqueio do Talibã ao ser enviada pela TV Globo, assim como as regras que lhe eram impostas, uma vez que estava dentro do território afegão.

“Eu fui em junho de 2000, e o Talibã governou entre 1996 e 2001. Estava no auge do fechamento do país. Eram pouquíssimas organizações de ajuda humanitária. As pessoas desistiram de ir para lá porque não recebiam ajuda do governo, se expunham e expunham os seus funcionários a muitos riscos. O país foi ficando realmente abandonado”, recordou a apresentadora.

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Ana revelou que demorou um ano e meio para conseguir a emissão de seu visto. “Fiquei negociando com representantes fora do país. Consegui convencê-los a dar o visto para duas mulheres de uma equipe de três pessoas. Eu, Guta Nascimento (produtora) e Hélio Alvarez (cinegrafista), declarou. O acordo, entretanto, vinha acompanhado de algumas condições a serem seguidas.

“Consegui isso contanto que assinasse documentos na entrada me comprometendo a seguir as regras deles, que eram basicamente não filmar nada sem autorização, jamais conversar com nenhum afegão, ser acompanhada permanentemente por um representante do governo e, ao entrar no país, ir direto me apresentar para o Ministério das Relações Exteriores ou qualquer coisa semelhante a isso, porque não tinha nenhuma relação exterior. Claro que não fiz nada disso”, avisou ela, em contrapartida.

Em detalhes, a comunicadora contou como fez para chegar até o Afeganistão: “Entrei pelo norte, pela fronteira do Paquistão, e pela primeira cidade que se chama Jalalabad. Fiquei entre a fronteira e Cabul (capital afegã) uns três dias para filmar o máximo que eu conseguisse antes de ser acompanhada por um representante do governo. Assim que cheguei em Cabul, tive que ir ao ministério para me apresentar e assinar todos os papéis”.

Apesar de ser constantemente vigiada pelo governo local, Ana conseguia escapar para gravar outros conteúdos jornalísticos. “Colocaram um cara comigo que não deixava a gente fazer nada. Só deixava a gente filmar as instalações do governo, o museu de Cabul… Filmávamos metade do dia com ele e o resto eu fugia com a Guta pela porta de trás do hotel, com câmera escondida para fazer outras coisas”, contou, revelando em seguida uma desculpa que usou para dar seus “perdidos”.

“Alguns dias, eu disse que havia ficado doente com a comida e pedi para o cinegrafista sair com ele (representante) para fazer imagens de nada. Nesses momentos, consegui fazer (reportagens) da escola clandestina de mulheres, cooperativas clandestinas de mulheres…. Tínhamos uma quarta pessoa, que foi um guia local. Ele estava baseado no Paquistão e se chamava Kamal. Era muito experiente e ajudou muito”, afirmou.

Antes de deixar o país, o tal representante que a acompanhava pediu para que a equipe de cinegrafistas entregasse a ele todas as fitas de gravação. Foi então que Kamal, o guia, sugeriu a Ana que mandassem um material com informações pouco importantes, somente para despistar o funcionário público.

“O guia falou: ‘entrega uma fita que o cinegrafista tenha feito junto com ele e diz que você entrega todas as outras amanhã cedo porque você tem que retirar da câmera’. Eles eram muito rudimentares no conhecimento de tecnologia de comunicação, e certamente não sabiam nem que poderia ter uma câmera escondida no botão da minha roupa. Ele levou essa fita que não tinha nada de importante e a gente fugiu de madrugada”, lembrou.

O momento da fuga, segundo ela, foi o mais assustador de toda a viagem, já que as punições, caso fossem pegos, seriam dramáticas. “O Kamal colocou no nosso carro adesivos da ONU, que não sei como conseguiu. Ele usou um turbante para parecer que era um talibã levando uma equipe da ONU para o sul do país. As punições eram ‘suaves’, como perder a mão, ser apedrejada em praça pública… Foi o momento que mais tive medo. E não queria perder o material que tinha conseguido”, encerrou ela, que conseguiu escapar em segurança.

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Ana Paula em sua primeira viagem ao Afeganistão, em 2000. A jornalista voltou ao país outras três vezes. (Foto: Arquivo Pessoal)

Entenda a situação do Afeganistão

Após 20 anos de guerra, o grupo extremista Talibã tomou a capital do Afeganistão, prometendo estabelecer um novo regime no local. A ocupação começou no dia 15 deste mês, com a invasão do palácio presidencial da cidade de Cabul. Em uma postagem nas redes sociais, o presidente Ashraf Ghani disse que se deparou com uma escolha difícil, mas que os insurgentes conseguiram retirá-lo do país. “Deveria suportar enfrentar o grupo armado que quis entrar no palácio ou sair do país querido que dediquei minha vida para proteger. Para evitar derramamento de sangue, achei melhor sair”, escreveu ele.

A queda do governo afegão para o Talibã ocorre 20 anos depois de o grupo extremista ser expulso de Cabul pelos Estados Unidos, que invadiram o Afeganistão dias após os ataques de 11 de setembro de 2001. Em maio deste ano, o presidente dos EUA, Joe Biden, iniciou a retirada efetiva de todas as suas tropas do país. Com a saída dos norte-americanos, o grupo islâmico fundamentalista e nacionalista capturou novamente a capital afegã.

Na última segunda-feira (16), cenas angustiantes foram registradas por residentes de Cabul, que se deslocaram até o Aeroporto Internacional Hamid Karzai para tentar deixar o país. Com a cidade tomada pelo Talibã, cidadãos não viram escolha a não ser escapar pelos ares. Vídeos divulgados nas redes mostram milhares de pessoas correndo pela pista do aeroporto, enquanto outras se agarravam a escadas para tentar entrar à força em aviões. Nas imagens de partir o coração, é possível ver ainda afegãos se pendurando do lado de fora de aeronaves no momento da decolagem, e despencando do céu, segundos mais tarde. Que tristeza!

 

Na mesma semana, Aisha Khurram, ex-embaixadora da Juventude da ONU, compartilhou o estado de angústia e medo em que as mulheres do Afeganistão se encontram no momento. “Alguns professores se despediram de suas alunas quando todos foram evacuados da Universidade de Cabul nesta manhã… e talvez não tenhamos nossa formatura assim como milhares de alunos em todo o país…“, publicou ela. Lotfullah Najafizada, chefe do serviço de notícias afegão Tolo News, também postou no Twitter uma foto de um homem cobrindo de tinta imagens de mulheres pintadas em um muro de Cabul.

Lotfullah Najafizada Afeganistao Cabul
Muros sendo pintados no Afeganistão. (Foto: Reprodução/ Twitter)

Mais de 250 mil pessoas foram deslocadas pelos combates e tentaram encontrar refúgio na capital do país. Algumas que fugiram de áreas controladas pelo Talibã contaram que os militares obrigaram as famílias a entregar meninas e mulheres solteiras para se tornarem esposas dos combatentes.