Coronavírus: Após muito esforço, jornalista consegue se despedir da mãe por chamada de vídeo, faz relato emocionante e luta por projeto de lei: “Terá o nome dela”

A pandemia do novo coronavírus tem sido responsável pela dor de milhares de famílias no Brasil. A jornalista Silvana Andrade, de 56 anos, perdeu a mãe por causa da doença e ainda precisou lutar para encontrar uma forma de se despedir, mesmo que por chamada de vídeo. Agora, ela quer garantir que outras pessoas tenham o mesmo direito, que ela conquistou a muito custo.

Maria Albani deu entrada no hospital em Recife acreditando estar com pneumonia, mas na verdade havia contraído a Covid-19. Ela faleceu aos 93 anos. Em um depoimento forte e emocionante para o Uol,  Silvana resgatou as memórias das últimas semanas. Confira o texto na íntegra:

“Me despedi de mamãe, fisicamente, acreditando que ela estava com uma pneumonia -ela sentia falta de ar, febre e dores no corpo. Me lembro de ela entrar no elevador e eu dizer ‘mãe, eu te amo. Fica tranquila que vai dar tudo certo’. Quando as pessoas contraem esse vírus, elas saem de suas casas e entram em um buraco negro. Passei três dias sem notícias dela, sequer sabia em que UTI ela estava ou quem era o médico que a acompanhava.

Depois de inúmeras tentativas, consegui, pela primeira vez, falar com o médico da UTI. Ele me disse que haviam entubado minha mãe sem que eu fosse consultada, uma vez que ela estava lúcida. Segundo ele, mamãe autorizou a própria entubação. Ela foi sedada e colocada em coma induzido. Comecei a ligar, então, todos os dias, para ter notícias dela.

Maria Albani faleceu aos 93 anos por causa da covid-19. Foto: Reprodução/Facebook

Fazia um mês que a gente havia perdido meu pai. Mamãe e ele eram grudados, você nem imagina. Entre o ano passado e esse ano, ela passou por quatro cirurgias no fêmur -nas quatro, as hastes e próteses saíram do lugar. Droga de médico! Ele, o tempo todo, ficou do lado dela, mesmo na cama. Até que ela teve duas infecções urinárias e voltou para o hospital, em fevereiro. Papai foi adoecendo, adoecendo, e logo, morreu. Mamãe estava internada e só ficou sabendo da morte dele duas semanas depois. Quando teve alta e chegou em casa, repetia ‘por que ele me deixou sozinha?’.

Quando eu era jovem, a possibilidade de meus pais morrerem me fazia perder o ar. E, olha só, perdi os dois ao mesmo tempo. Não consigo te explicar o tamanho da dor, mas te garanto que ela foi amenizada quando conseguimos protocolar esse projeto de lei. Agora, ele precisa ser votado.

Em abril, a Secretaria de Saúde de Pernambuco teve acesso ao depoimento que fiz no Facebook e transformou a ideia do projeto em um programa público. Agora, nas unidades de saúde públicas do estado, a visita via videochamada já é uma realidade. Quero que outras pessoas possam, como eu pude, ter a decência da despedida. Só isso.

E eu só tive esse estalo quando o médico de mamãe, então, depois de 15 dias, me disse que o quadro dela havia piorado muito. No dia seguinte, ao ligar para ouvir o boletim médico, a enfermeira me contou que ele não estava no hospital e que eu precisaria esperá-lo voltar para receber notícias. Então, pedi que ela levasse o telefone até minha mãe.

‘Impossível, senhora’, foi a resposta. Ela disse que não estava autorizada a entrar com o celular na UTI. Sugeri, então, que não fosse seu telefone pessoal, mas um tablet do hospital ou algum aparelho corporativo. A negativa veio novamente, e aí eu desabei.

Senti toda a dor que uma pessoa pode sentir, mas acho que senti, também, a dor do mundo; de todos os familiares que têm a mesma angústia, que têm seu direito humanitário de despedida negado; das pessoas que sequer sabem que têm esse direito. Desabei num choro que você não tem ideia. Liguei de novo para a enfermeira e fiz o mesmo pedido. Negado, novamente. Foi quando eu disse ‘você não está entendendo. Eu vou até as últimas instâncias porque negar isso é crueldade’.

Sabe, a gente tem dois estados de angústia: o primeiro é a perda pelo desaparecimento. A pessoa que você ama some. Um dia, ela está ali do seu lado e, de repente, ela não está mais. E você não pode vê-la mais, entende? É a sensação do desaparecimento. Toda vez que o telefone toca é uma aflição. Quando minha mãe morreu, me ligaram do hospital pedindo os documentos dela. Eu falei: ‘O quê? O que você quer dizer com isso? Minha mãe morreu?’.

Caso o projeto de lei seja aprovado, terá o nome de Maria Albani, mãe da jornalista Silvana Andrade. Foto: Reprodução/Facebook

E a enfermeira respondeu: ‘Não sei, aí é com o médico’. Imagine como me senti? Liguei para o médico e ele confirmou. E aí vem o segundo estado de angústia, que é a morte.

E, apesar da dor, senti alívio por, dois dias antes, ter falado com ela por 15 minutos, depois de ter insistido incansavelmente. Eu disse tudo, apesar de ela estar inconsciente, sedada e entubada. Mas eu pude olhar para a minha mãe, pude ver minha mãezinha e falar. Quem sabe ela não estava me ouvindo? Ouvindo ou não, olhei para ela e disse tudo o que gostaria de dizer. Por ela, em memória, me dediquei a lutar pelo projeto de lei. Se aprovado, adivinha como ele vai se chamar? Lei Maria Albani. Era o nome dela.

O que eu quero é um protocolo que seja instituído de forma sistêmica para sempre, não só pela covid-19, mas para pacientes com outras doenças contagiosas e até para familiares que moram em outro estado ou país. Por que não humanizar um momento tão difícil? Minha mãe tinha uma alegria de viver que, confesso, nunca vi outra pessoa ter. E sei que, se ela pudesse, faria o mesmo.”

Em sua conta pessoal no Facebook, Silvana dividiu com amigos e familiares a angústia e a revolta de não poder ter contato com a mãe, principalmente depois de ouvir que ela não sobreviveria. “Diante do quadro crítico dela, eu solicitei que fosse feita uma chamada de vídeo para que pudesse ver minha mãe e me despedir dela virtualmente. Em todo o mundo estão dando esse direito humanitário aos familiares de pacientes com coronavírus”, publicou.

“Mas a princípio me negaram e depois de insistir disseram que poderia fazer uma chamada comum. Como assim? Como terei certeza de que ela estará ouvindo e por que não posso ver minha mãe? O celular é o mesmo para ligação com vídeo ou sem vídeo”, indagou.

A jornalista ainda salientou que não esperava que a equipe médica interrompesse seu trabalho para a chamada. “A chamada pode ser feita pelos assistentes sociais dos hospitais, não estou pedindo isso aos médicos ou enfermeiros. Há um mês meu pai faleceu no mesmo hospital. Um dia antes, os médicos ligaram para nos avisar. Toda a família teve tempo de se despedir dele. A situação agora é a mesma e não entendo porque a dificuldade de fazer uma chamada de vídeo. De dizer o quanto amo minha mãe olhando para ela”, lamentou.

Após muita insistência, a filha de Maria conseguiu se despedir e afirmou seu compromisso em ajudar que outras pessoas tenham esse direito garantido. “O meu caso, depois de muito choro e angústia deu certo, mas agora a questão é garantir que todas as famílias no Brasil tenham acesso a esse contato por direito e não por súplica. Temos que pedir que os familiares de pacientes com doenças infectocontagiosas, sejam quais forem, tenha direito de se despedirem dos seus amados. É importante inclusive para a saúde psicológica dos familiares”, observou.

Felizmente, Silvana já tem visto o seu gesto de humanidade e empatia pelo próximo gerar frutos. Em seu perfil, ela celebrou a criação do programa “Visitas.com”, da Secretaria de Saúde de Pernambuco. “Uma GRANDE VITÓRIA foi conquistada hoje… Agora os hospitais públicos do Estado vão oferecer aos familiares de pacientes com Covid-19 e outras doenças infectocontagiosas a visita virtual. Agora é garantir este direito humanitário para todo o país, em todos os hospitais públicos, privados, beneficentes e de campanha aprovando o PL do Célio Studart (PV/CE)”, compartilhou.